|
Galeria traz raridades de Mira Schendel
Fernando Oliva
André Millan reúne mais de cem obras de séries
que há muito estavam longe dos olhos do público, selecionadas
com ajuda da filha da artista, morta há 15 anos
São Paulo - Desde a morte de Mira Schendel, há quase
15 anos, seu espólio é um baú sem fundo que
não cessa de despejar obras para coletivas ao redor do mundo
e de onde, de tempos em tempos, é recolhido o suficiente
para montar pequenas retrospectivas, invariavelmente anunciando
material inédito.
Contudo, quando se achava que o poço havia chegado ao fim,
surpresa: ele se transmuta em uma espécie de cornucópia
mágica e passa a jorrar trabalhos raramente vistos.
Esse é o caso da exposição que a Galeria André
Millan inaugura nesta quinta-feira, com mais de cem criações
da artista, chance rara de se ver coisas há muitos anos longe
dos olhos do público, caso das mandalas, dos bordados, do
I Ching e de alguns pequenos trabalhos que não constam dos
livros sobre a artista, mas que o galerista André Millan
apelidou de "decalques", pequenas colagens que usam recortes
de flores e borboletas - trabalhos inusitados, muito distantes de
tudo o que a artista produziu antes ou depois.
As obras da mostra foram selecionadas por Millan e por Ada Clara
Schendel, filha única da artista. Desde No Vazio do Mundo,
histórica retrospectiva que ocupou os amplos salões
da Galeria de Arte do Sesi cinco anos atrás, São Paulo
não via um número tão grande de criações
da artista suíça - que se mudou definitivamente para
o Brasil no final da década de 40, aos 30 anos, e aqui produziu
compulsivamente até o final da vida (a artista morreu em
1988, aos 69 anos, de câncer no pulmão).
Na montagem da Millan, as mandalas, bordados, I Ching e "decalques",
por seu colorido e expressividade, funcionam como um contraponto
às peças hors-concours das monotipias (sua marca registrada),
objetos gráficos, discos, toquinhos e sarrafos.
O I Ching, uma das jóias raras desta exposição,
é composto por 12 pequenas (47 x 24 cm) têmperas sobre
madeira, criadas em 1981, em que a orientação geometrizante
da artista cede espaço à expressão pela cor
e ao uso de espaços vazios. A série foi produzida
especialmente para a 16.ª Bienal de São Paulo.
Já Mandalas é uma série de meados dos anos
70, aqui em número de sete peças, pequenos desenhos
coloridos em ecoline sobre papel, inspirados no tantrismo budista,
em que por meio de um diagrama composto de círculos e quadrados
concêntricos a imagem do mundo se faria representar, na visão
da artista. A última oportunidade que o público de
São Paulo teve de ver as mandalas foi em 1975, no extinto
Gabinete de Artes Gráficas.
Tanto as mandalas como o I Ching são provas da ligação
de Mira com as filosofias orientais, ela que sempre tentou transgredir
as barreiras artísticas entre Ocidente e Oriente.
Do final dos anos 70, os "decalques" configuram outro
momento único que pontua a retrospectiva. Mira utiliza pequenas
imagens populares, pitorescas, de flores e borboletas fortemente
coloridas, aplicadas sobre padrões geométricos, em
colagens que incrivelmente não se aproximam do kitsch, mas
sim da precisa delicadeza que ganharia sua forma definitiva nas
têmperas e folhas de prata e ouro sobre telas, de meados da
década de 80 - essas sim uma ausência sentida na mostra
da Galeria Millan.
Da série bordados, produzida entre 1962 e 1964, há
um único trabalho, que mostra a serialização
de formas ovais, quadrangulares e circulares - também bastante
distante do preto-e-branco e da economia de gestos eloqüentes
que marcou a trajetória de Mira.
Tinta e talco - Apenas entre 1964 e 1966, Mira Schendel produziu
cerca de 2 mil monotipias, série de desenhos feitos com tinta
a óleo em papel-arroz japonês ultrafino. Acrescida
de caracteres em letraset, essa técnica seria retomada nos
anos 70. A exposição na Millan reuniu cerca de 80
desses trabalhos, encontrados juntos em antigas pastas do arquivo
de Mira, e montou uma pequena instalação, pendurando
os desenhos em alturas e distâncias variadas.
Esse espaço, que recebe grande parte da luz da casa modernista
onde está instalada a galeria, é ideal para que o
caráter transparente e translúcido da obra da artista
se revele por completo. Mira desenhava pelo avesso do papel, e essa
"posição" fica clara nessas monotipias.
Ela criou uma técnica muito peculiar para seus desenhos,
em que propositadamente reduzia seu controle sobre o processo e
o resultado da obra. Primeiro entintava uma lâmina de vidro,
depois colocava sobre ela uma leve camada de talco, a fim de que
a tinta não fosse absorvida por completo.
Só então sobrepunha folha de papel-arroz sobre o
vidro e, usando a unha ou o dedo, desenhava na superfície
branca.
Serviço Mira Schendel. De segunda a sexta-feira, das 10 às
19 horas; sábado, das 11 às 17 horas. Galeria André
Millan. Rua Rio Preto, 63, tel. 3062-5722. Até 8/6. Abertura
nesta quinta, às 20h.
Fonte: Jornal Estadão
13/05/2002
|