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Uma minibienal problemática
Luiz Camillo Osorio
O “Panorama da arte brasileira”,
atualmente no Paço Imperial, ganhou projeção
de uma minibienal, pondo em foco, a partir de
alguma linha curatorial, a produção
de arte recente. Realizado desde 1969, sob os
auspícios do MAM-SP, ele se fortaleceu
em meados da década passada. A edição
deste ano trouxe uma novidade: o cubano, radicado
nos Estados Unidos, Gerardo Mosquera foi convidado
para a curadoria e realizou uma exposição
interessante porém problemática.
O seu conhecimento de longa data da arte brasileira
não se fez valer como poderia, assim como
o espaço apertado complicou a leitura das
obras. Vamos por partes.
No nome, nossa vocação
para desorganizar estruturas
Comecemos pelo subtítulo: “19 desarranjos”.
Por mais precisa conceitualmente que seja, a óbvia
conotação orgânica desta palavra
atrapalha. É uma palavra feia. Dezenove
é apenas o número de artistas. Mas
tudo bem, implicâncias de lado, fiquemos
com o desarranjo, pois as razões do curador
são boas e qualificam bem o que ele acaba
por mostrar — sem ironia, por favor. Segundo
Mosquera, desarranjo pretende revelar a nossa
vocação para desorganizar estruturas,
subvertendo “a partir de dentro o marco
construtivo, mas sem transpô-lo e sim ampliando
suas possibilidades, potenciando-as de forma nova”.
O maior mérito é sua vontade de
discutir as singularidades poéticas brasileiras
sem nenhuma apologia nacionalista ultrapassada.
Para isto, contaram a favor o seu olhar de estrangeiro
e a inclusão de artistas não brasileiros
nesta exposição. Assim podemos começar
a pensar uma noção de brasilidade
sem fronteiras e identidades fixas.
A escolha dos artistas, seguindo a linha conceitual
traçada pelo curador, acabou se mostrando
comprometida com uma perspectiva redutora da nossa
história recente. Repetiu-se uma visão,
muito batida lá fora, do desenvolvimento
da arte brasileira restrita ao eixo Neoconcretismo
e Cildo Meireles. Não se discute a liberdade
do curador, a pertinência de sua leitura
nem a importância dos artistas escolhidos.
O ponto é a insistência em uma única
leitura e a reincidência de certos nomes.
Tomando a desestruturação e o deslocamento
da referência construtiva como proposta
curatorial, parece arbitrário juntar artistas
como Cildo Meireles, Ernesto Neto, Vik Muniz,
Leonilson e Adriana Varejão. A única
justificativa talvez seja o pouco tempo para a
realização da exposição
e o fato de estes artistas facilitarem uma itinerância
internacional para o “Panorama”.
Destaque para o resgate de Umberto Costa
Barros
Outro ponto discutível é o fato
de a obra de Cildo Meireles — além
do magnífico porém bissexto Umberto
Costa Barros — ter sido a única referência
efetiva da geração vinda dos anos
70. Como se ele fosse uma ilha poética
isolada e marco absoluto para nossa produção
atual. Tivesse o curador explorado outras referências,
além de Cildo, como Barrio e Antonio Dias,
para citar só dois, ele teria alargado,
e muito, os horizontes de compreensão de
nossa vitalidade e de nosso desarranjo contemporâneos.
A obra de Leonilson certamente ficaria mais abrigada
historicamente, assim como as de José Damasceno,
Fernanda Gomes e mesmo Adriana Varejão.
Deve ser sublinhado, para não ficar apenas
nos senões, o importante resgate do artista
Umberto Costa Barros, cujas poucas obras realizadas,
no fim dos anos 60, fizeram época. Uma
pena não ter entrado aqui no Rio a maravilhosa
instalação com os bancos articulados
em precário equilíbrio, que foi,
indiscutivelmente, a grande sensação
deste “Panorama” em São Paulo.
Além disso, cabe destacar a aposta nos
artistas de Brasília Adriano e Fernando
Guimarães, que vêm conseguindo realizar,
nas suas performances, o difícil casamento
de força plástica e presença
dramática. O mesmo destaque pode ser dado
para a jovem Sara Ramo, cujos dois vídeos,
“Ceia” e “Oceano Possível”,
exploram o conceito da mostra com delicadeza e
poesia.
Falta facilitar a relação
do público com as obras
A maneira de “expor” os vídeos,
de modo a facilitar a relação com
o público, é uma questão
a ser resolvida. No mínimo, deveria ser
possível sentar para vê-los. Os gaúchos
Lucas Levitan e Jailton Moreira também
realizaram, em dupla, um trabalho inteligente,
silencioso e com enorme graça. Inventaram
capas de CDs imaginários — porém
possíveis — e os expuseram em uma
vitrine na loja de discos do próprio Paço,
para surpresa dos mais atentos e curiosos. Quem
não gostaria de comprar um CD intitulado
“Benditos”, com Itamar Assunção
e Naná Vasconcelos, ou então “Twin
hearts”, com Lou Reed e Laurie Anderson?
A concepção gráfica das capas
é primorosa. Entre os três estrangeiros
presentes, cabe mencionar a chinesa Kan Xuan,
principalmente pelo vídeo com as cebolas
desmontadas e remontadas. A desconstrução
de uma lógica e de um tempo utilitários,
tão entranhados em nossa experiência
cotidiana, parece ser o denominador comum dos
vários desarranjos poéticos.
No mais, cabe repetir a relevância, para
a desprovincianização do nosso circuito
de arte, destas interferências curatoriais
realizadas por críticos internacionais
sérios e de renome. Só assim conseguiremos
de fato uma inserção mais afirmativa
e abrangente da arte brasileira.
OGlobo.com
04/01/2004
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