Miguel
dos Santos faz uma leitura da arte popular
Camila Molina
Após 14 anos, um dos mais
atuantes membros do Movimento Armorial volta a SP
São Paulo - O artista pernambucano
Miguel dos Santos apresenta, depois de 14 anos sem fazer
uma exposição individual em São Paulo, 25 cerâmicas e 8
pinturas na Galeria Ricardo Camargo. Autodidata, nascido
em Caruaru, Miguel dos Santos mudou-se para João Pessoa
com 16 anos para fazer sua formação do jeito que quis: com
um curso de ferramentaria e lendo todos os tipos de obras
brasileiras e de todo o mundo.
As cerâmicas e as pinturas
reunidas na mostra foram produzidas entre 1975 e 2001 e
são sobre o tema de toda a pesquisa do artista, ou seja,
a cultura popular. "Os ´nossos´ temas (nossos porque o produto
de uma obra é o resultado de uma época) são a cultura popular
das feiras do Nordeste, a cultura negra chegando à informação
mais universal que está concentrada no litoral. Esse percurso
´nos´ deu legitimidade de leitura da expressão de cada região
do Nordeste. Enfim, o tripé de raças - negro, índio, branco
- é de onde emerge o nosso trabalho", explica Miguel dos
Santos. O artista foi um dos mais atuantes no Movimento
Armorial, criado por Ariano Suassuna.
As pinturas são geralmente
feitas com cores terrosas, "aquecidas pelos laranjas e vermelhos,
chegando à cor do Sol". Já as cerâmicas são de várias fases
e tratam do primitivo e do arcaico. As mais recentes formam
estruturas de totem. Em todas as suas produções há um símbolo
formado por uma meia-lua, uma linha vertical e três pontos,
uma espécie de assinatura. O artista conta que a partir
deste ano, seu símbolo mudará, pois há três anos ele está
trabalhando com novos materiais como o mármore de Carrara,
a madeira e a pedra-sabão.
Sobre seu ofício de artista
e seu tema, Miguel dos Santos explica: "A força do Nordeste
é que ou você consegue fazer aquilo para viver, ou você
morre de fome. Sou uma pessoa que viu num bolo de barro
na beira de um rio e num pequeno forno à lenha a única possibilidade
de continuar vivendo."
Fonte: Jornal
Estadão
14/08/2001