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Adeus à mestra apaixonada pela arte
Daniela Name

Era impossível não se emocionar numa aula de história da arte comandada
por Fayga Ostrower. Mesmo tendo que falar através da impessoalidade
de um microfone, a artista plástica conseguia comover auditórios
lotados com comentários a respeito da obra de um de seus xodós —
ela assim chamava os artistas prediletos. Diante de um clássico
de Da Vinci ou um “Desastre” de Goya, apenas expressões derramadas
eram possíveis. Há três anos, um auditório lotado do Centro Cultural
Banco do Brasil chegou a ver a professora às lágrimas diante de
uma ponta-seca de Rembrandt.
Os olhos marejados assinalavam a paixão de alguém que passou a vida
ninando a arte, lutando para que outras pessoas se apaixonassem
por ela e buscando as relações de pintura e escultura com a ciência
moderna em ensaios que se tornaram best-sellers. Os livros “A sensibilidade
do intelecto”, “Universos da arte” e “Criatividade e processos de
criação” (este último nascido de um curso ministrado para operários),
todos da Editora Campus, já são clássicos.
Artista ganhou prêmio da Bienal de Veneza
— Em vários momentos históricos, ciência e arte têm visões paralelas,
mas tocam na mesma beleza — disse ela ao GLOBO, em 1998, na época
do lançamento de “Sensibilidade do intelecto”. — Em algumas épocas,
a arte até antecipa a ciência. Da Vinci inventou a perspectiva 150
anos antes de Galileu. A noção de volume e ordenação do espaço,
proposta por Galileu na ciência, existia nos quadros de Da Vinci.
A importância da artista, que morreu anteontem à noite e foi enterrada
no início da tarde de ontem, no Cemitério Israelita do Caju, não
pode ser reduzida à sua vocação para o ensino. Seus trabalhos estão
espalhados em museus do mundo inteiro e, em 1958, ela recebeu o
Prêmio Internacional da Bienal de Veneza. Ao lado de Edith Behring,
foi pioneira da gravura abstrata no Brasil, provando que uma antiga
tradição da arte nacional — com mestres como Goeldi, Livio Abramo,
Gilvan Samico e Lasar Segall — podia ultrapassar os limites da figuração.
Em suas aulas no Museu de Arte Moderna ou nos grupos de estudo que
mantinha em seu apartamento no Flamengo, Fayga ajudou a formar artistas
que se firmariam como exímios gravadores, como Anna Bella Geiger
e Anna Letycia. Estava internada há cinco dias no Hospital São Sebastião,
no Catete, por causa de complicações devido a um câncer.
A artista tinha 81 anos e há algum tempo vinha apresentando dificuldades
auditivas e visuais, além de cansaço depois de caminhadas muito
longas. Mas fazia questão de se manter em atividade e estava escalada
para falar no seminário da mostra “Surrealismo”, no CCBB. Em 1999,
aceitou o convite do GLOBO para fazer uma visita comentada à exposição
“Picasso — Anos de guerra”, no MAM. Ficou tão empolgada diante da
matriz da série de gravuras “A mulher que chora” que seus comentários
atraíram uma pequena multidão de “alunos”.
“A mulher que chora” não causava impacto em Fayga por acaso. Além
de ser uma obra magistral, seu apelo antibelicista evocava a biografia
da artista, que nasceu em Lodz, na Polônia, viveu 12 anos na Alemanha
e chegou ao Brasil nos anos 30, fugindo da crise política e da perseguição
anti-semita na Europa.
Primeiros trabalhos refletem expressionismo alemão
Já no Rio, o início da carreira de Fayga vai espelhar o expressionismo
figurativo que conhecera no auge, em solo alemão. Só mais tarde,
quando já tinha domínio total da impressão em metal — também vai
fazer trabalhos em xilogravura, litogravura e aquarela — ela vai
namorar com o cubismo e caminhar gradualmente para a abstração.
Lavadeiras, mulheres do morro e grupos da favela, tratados com compaixão
e generosidade em seus primeiros trabalhos brasileiros, foram substituídos
por manchas abstratas. Mas sua obra nunca abandonou o lirismo.
— A chegada à abstração foi um processo que durou anos — explicou
em 1983, quando o Museu Nacional de Belas Artes organizava uma retrospectiva
de sua obra. — Não programei nada, nem poderia.
Caminhamos de trabalho a trabalho e cada vez a intenção de alcançar
uma nova forma expressiva, desconhecida, cria um ponto de partida.
Também professor, o artista Nelson Leirner destaca a militância
da artista como mestra e ensaísta, ressaltando que seus livros levaram
a arte para um público mais amplo. De Olinda, Gilvan Samico também
fala com carinho da artista:
— Fayga foi um ícone, uma figura conhecida nacionalmente. Seu passado
figurativo foi muito marcante, tão importante quanto suas gravuras
abstratas.
Fonte: Jornal Estadão
14/09/2001
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