Maia Rosa
expõe obras inéditas em SP
Maria Hirszman
Artista utiliza molduras,
espelhos, portas e arcos em seus trabalhos, como se estivesse
construindo palcos vazios, teatros do nada, em sutis referências
São Paulo - Quatro anos depois
de sua última exposição individual, Dudi Maia Rosa está
de volta com uma série de trabalhos inéditos, que expõe
a partir de hoje na Galeria Brito Cimino. Ao mesmo tempo
em que essas obras recentes têm a mesma preocupação experimental
e as referências simbólicas que pautam o trabalho de Rosa,
elas parecem romper com os exercícios de aprofundamento
da pintura - dando-lhe um tratamento quase tridimensional
- para assumir um caráter bastante alegórico e explorar
mais a superfície, mesmo que mantenham algo de relevo e
volume.
Molduras, espelhos, portas
e arcos dão uma teatralidade nova aos trabalhos, como se
na verdade Dudi Maia Rosa estivesse construindo palcos vazios,
teatros do nada. As referências existem, mas são bastante
sutis. Diante de uma tela verde estridente e cheia de movimento
como 2222 - "parece um vestido de Leonilson, uma cachoeira"
-, ele diz se surpreender com o caráter tropicalista, brasileiro,
da peça. "Talvez ela seja o lugar em que menos me reconheça
da exposição", afirma.
A tela monocromática em azul,
emoldurada por uma cortina imponente, seria uma leitura
contemporânea, uma homenagem à imagem de Costantino pintada
por Piero della Francesca. Já seus portais remetem aos arcos
de De Chirico e à metafísica, que define como seu "primeiro
amor".
Mas dentro dos vários trabalhos
reunidos nessa exposição, os que mais falam do processo
de criação de Maia Rosa são a tela Narciso - uma obra de
um roxo tão intenso e escuro, que nos surpreendemos ao notar
pouco a pouco as várias nuances de cor e transparência -
e um turbulento trabalho feito em fibra de vidro e resina,
que ocupa o centro da mostra e a capa do catálogo. Essa
obra lembra o Espelho Cego, de Cildo Meireles, que ao invés
de refletir a imagem da pessoa que o mira, mostra uma opaca
e conturbada imagem.
"Você pode se refletir nas
águas límpidas ou nas águas turvas", reconhece o artista.
Mas no fundo, é essa a questão que marca para ele sua trajetória
artística, iniciada há mais de 30 anos. "Parece que você
está sempre cercando esse mesmo lugar, sempre tentando se
reconhecer, se articular", resume.
Fonte: Jornal
Estadão
14/08/2001