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Seguindo os sinais de Marcos Chaves
Daniela Name

Marcos Chaves

O pequeno espaço da galeria Laura Marsiaj, no Jardim Botânico, foi transformado num parque de sensações. Na exposição “Logradouro”, que o artista plástico Marcos Chaves inaugura hoje, às 20h, a obra é a sala que a apresenta e depende diretamente da participação do público. Dono de um trabalho que sempre misturou a apropriação de objetos cotidianos com jogos ópticos e fina ironia, Chaves criou uma instalação em que reveste toda a sala com faixas de trânsito pretas e amarelas. As tiras plásticas cobrem o chão, o teto e as paredes, criando desenhos que geram golpes de vista e também podem causar estranhamento ou vertigem.

As faixas ultrapassam o limite da galeria e ganham a Rua J. J. Seabra, sinalizando aos pedestres para o que pode ser visto na galeria — a própria sinalização.

Influências da arte pop e do construtivismo

— É uma exposição do excesso, bastante saturada, porque não acredito mais num mundo cool depois que os aviões atravessaram os prédios em Nova York — diz ele, numa referência aos atentados ao World Trade Center no dia 11 de setembro passado. — “Logradouro” é um trabalho que mantém minha relação com o pop, com a inspiração que vem da rua. Também misturo outras influências, como a op art, a arte cinética, o construtivismo, os penetráveis do neoconcretismo. A instalação é um pouco de cada coisa.

No texto de apresentação da mostra, o crítico de arte e literatura Adolfo Montejo Navas tece outras relações, comparando “Logradouro” à pintura pop/construtiva de Raymundo Collares. Lembra ainda que o amarelo, cor associada à loucura e transformada em sinal de atenção no trânsito, teve importância capital na obra de Kandinsky.

Chaves tem intimidade com amarelos, faixas e sinalizações. Ex-funcionário do extinto Banco Nacional, foi o responsável por levar as faixas amarelas para o chão das agências, com as linhas substituindo os antigos postes de metal na orientação dos clientes. Os postes, aliás, reapareceriam mais tarde unidos por finos fios de náilon em “Hommages aux mariages”, instalação apresentada no Museu de Arte Moderna no início dos anos 90. Também concebeu uma instalação para a estação de metrô da Carioca — “Não ultrapasse a faixa amarela” — nunca realizada.

Amanhã de manhã, o artista pega a ponte aérea para fazer os últimos ajustes em sua sala na 25 Bienal de São Paulo, que abre no sábado. “Morrendo de rir” é uma instalação que toca num desejo universal — o de ser feliz — e usa para isso um código que independe dos idiomas — as gargalhadas. Chaves gravou inúmeras delas, das mais histéricas àquelas entrecortadas por suspiros ou pausas para respiração. O público vai entrar na sala ouvindo os risos em fones sem fio e percorrerá fotos do artista em tamanhos gigantescos.

O artista foi flagrado gargalhando pelo fotógrafo Vicente de Mello — o resultado do ensaio são 16 painéis gigantescos, com imagens de 2 m X 1,80 m — e quer compartilhar o riso com os visitantes. Os que estiverem estourando de tanto rir vão poder descansar em pufes com rodinhas espalhados pelo ambiente.

— A expressão “morrer de rir” existe em várias línguas — diz Chaves. — Quero muito que as pessoas também sejam estimuladas a rir pelo som e pelas imagens, porque o trabalho só se completa com a participação do público.

MARCOS CHAVES, ‘LOGRADOURO’ O artista transforma a galeria em sua obra de arte.

Laura Marsiaj Arte Contemporânea: Rua J.J. Seabra 18, Jardim Botânico — 2529-6643. Ter a sex, das 14h às 22h. Sáb, das 16h às 22h. Até 20 de abril.


Fonte: Jornal Oglobo.com
18/03/2002