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MAM perto de ser museu com ‘m’ maiúsculo
Daniela Name

Fernando Cocchialare


Museu sem acervo é algo tão sem propósito quanto sanduíche sem recheio. Mesmo quando o pão é um ciabatta crocante, dourado e quentinho. Mesmo quando o museu está instalado num prédio que é um dos mais bonitos do Rio — quem sabe até do Brasil — e tem assinatura de Affonso Eduardo Reidy. Depois de mais de 20 anos sem passar por uma renovação, o acervo do Museu de Arte Moderna ganhou peças valiosas, compradas com R$ 470 mil recebidos do Programa Petrobras nas Artes Visuais. São 15 peças, entre instalações, telas e desenhos, que farão parte de uma exposição que será inaugurada na quarta-feira.
Um senhor sanduíche. Inócuo, se não houver gente que queira comê-lo. E, justamente no momento em que o MAM incrementa seu recheio, a prefeitura começa a trabalhar em soluções para facilitar a manutenção do museu e o acesso do público ao prédio do Aterro do Flamengo. Procurado pelo GLOBO para comentar a posição da prefeitura sobre a segurança e a revitalização da região, o prefeito Cesar Maia anunciou que já autorizou a construção de uma sala sinfônica numa área contígua ao MAM. Ele diz ainda que a prefeitura pretende participar do conselho do museu, o que pode vir a minimizar os problemas econômicos do MAM.

— Apoiei a decisão do secretário das Culturas, Arthur da Távola, de construir uma sala de concertos mais qualificada que a Sala-SP (hall paulista de concertos cuja qualidade é reconhecida internacionalmente) — conta Cesar, que diz que o museu já teria conseguido a autorização do Iphan para a obra, pois o Aterro e o prédio de Reidy são tombados. — A idéia seria construir a Sala-Rio acoplada ao MAM, com a prefeitura participando do conselho do museu. A presença da Sala-Rio revitalizaria toda a área. Esta conjugação produziria atividades acopladas, como restaurante e butique cultural, que ajudariam nos custeios. Criaríamos um pólo em que uma instituição ajudaria a outra, numa sinergia cultural.

Diretora do MAM, Maria Regina do Nascimento Brito diz que ainda não há nada fechado com a prefeitura, mas confirma que o conselho do museu já fez duas reuniões com Ricardo Macieira, presidente do RioArte, para tratar do assunto. A idéia é construir a Sala-Rio respeitando o projeto de Reidy, que previa um teatro. Seguir as instruções da planta e da maquete originais é unir a fome com a vontade de comer: ao mesmo tempo em que bota o ponto final numa obra inconclusa de um dos maiores nomes da arquitetura brasileira, a prefeitura evita problemas com o Iphan, pois MAM e Aterro são tombados.

— O MAM tem o maior interesse em terminar o projeto do Reidy — conta Maria Regina, que, embora diga que a ajuda da prefeitura sempre será bem-vinda, argumenta que o conselho do museu não poderá sofrer alterações por enquanto. — Os novos membros acabaram de ser eleitos e existe um regulamento. Mudanças de conselheiros só serão possíveis daqui a três anos.

Maria Regina também comemora as novas aquisições do acervo. O MAM e a Petrobras não divulgam quanto custou cada uma, porque os artistas fizeram generosos abatimentos, por entenderem a importância de ter uma obra no acervo do maior museu do Rio. Mas sabe-se que as mais caras, instalações de Waltercio Caldas e Cildo Meireles, custaram em torno de R$ 100 mil. As mais baratas, quatro têmperas sobre cartão da “Fase negra” de Ivan Serpa, custaram cerca de R$ 9,5 mil cada. Todas preenchem lacunas importantes do acervo do museu, incorporando trabalhos importantes de movimentos que ele ajudou a gerar, como o neoconcretismo e a vanguarda experimental dos anos 70.

— O MAM foi o berço da vanguarda no Rio. Aqui nasceu o neoconcretismo, aconteceram os “Domingos de criação”, houve a Sala Experimental, importante nos anos 70. Mas, apesar disso, havia buracos tremendos no acervo, que procuramos preencher — diz Cocchiarale.

O curador lembra que o incêndio de 1978 tinha zerado a coleção do museu. O acervo foi ganhando novo fôlego com a generosidade de Gilberto Chateaubriand, que mantém ali sua coleção em regime de comodato, e com doações isoladas. Além das obras da Petrobras, que serão vistas a partir da semana que vem, o museu já está expondo seu acervo em duas coleções. Em “Presença modernista”, há pesos-pesados como Brancusi, Pollock e Giacometti. Em “Constelação”, obras que emanam luz, como a instalação de Sonia Andrade, feita com 200 quilos de cristal e as color bars de uma TV.


Fonte: Jornal O Globo
11/08/2001