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Magrittes, Mirós e Dalís em festa de arromba
Wilson Coutinho

Quem faz beicinho para “Surrealismo”, mostra com mais de 300 obras em cartaz no CCBB, podia ser punido com o seguinte castigo: ficar sem assistir, durante uma semana, ao programa “Friends” — um seriado sobre jovens exibido numa TV por assinatura. Tal pena é porque vai ficar com cara de rebelde sem causa. A exposição é ótima. Quem acha que o movimento liderado pelo poeta francês André Breton, em 1924, foi mais do que aquilo tem todo o direito de mudar de século.


O surrealismo, como filho cultural da Primeira Guerra, conflito que deixou cerca de dez milhões de mortos, foi uma das inúmeras tentativas de reinventar o mundo, no século XX, depois do seu primeiro e totalmente irracional desastre bélico. A exposição dá muito bem conta deste recado, exibindo as variadas linguagens artísticas que o surrealismo — ou os artistas associados ao seu espírito — nos legou.


Alguém pode até reclamar que falta a obra-prima “Girafas em chama”, pintura de Salvador Dalí. Mas outra obra do mesmo artista e do mesmo período, a escultura “Vênus de Milo com gaveta”, está na exposição. No badalado quadro, um manequim, em primeiro plano, tem uma gaveta a mais na perna esquerda do que na escultura, mas a idéia de que a peça, segundo Dalí, significa o “odor narcisista que todos têm ao abrirem suas próprias gavetas”, com toda a sua graça freudiana, está presente na escultura.


Vale ir ao CCBB até mesmo pelos precursores do movimento. Há três aquarelas e dois óleos do simbolista Gustave Moreau (1826-1898) que são de alta qualidade — não houve, na época, nada similar na pintura brasileira. Vê-se ainda a tela do pintor primitivo, muito admirado por Breton, Le douanier Rousseau (1844-1910). A alegoria cívica “Os representantes das potências estrangeiras saúdam a República”, de 1907, com todo o seu colorido e sua ingenuidade, não perdeu o encanto, acrescida de duas curiosidades: o pintor fez seu auto-retrato, de barbas brancas, posicionando-se junto ao grupo de políticos e embaixadores. A segunda é que o monumento pintado à direita tem muita significação para a democracia francesa. Trata-se de uma homenagem ao livre-pensador Etienne Dolet (1509 -1546), um símbolo da liberdade de opinião. Há ainda uma praça vazia de De Chirico e obras de Scotie Wilson, um dos primeiros fornecedores de peças para os museus do inconsciente. Os que querem mais podem se saciar vendo “Homem lendo jornal”, de Picasso, feita em 1914, ano em que o cubismo acabou.


O surrealismo, propriamente dito, está quase completo: desde os maravilhosos desenhos em nanquim de André Masson; as esculturas orgânicas, mas muito construídas do francês Jean Arp; as pinturas de Miró, principalmente “Corrida de touros”; e as paisagens românticas e surreais de Max Ernst, além de sua técnica chamada de frottage , as paisagens oníricas e figuras “antropomórficas” de Yves Tanguy, com suas pacientes e minuciosas pinceladas, até as fotografias de Man Ray. Uma tornou-se célebre por retratar a marquesa Casati, uma socialite, cujas extravagâncias são capazes de deixar as nossas sem uma boa idéia durante décadas. A madame pediu que o fotógrafo “retratasse sua alma”. Man Ray compreendeu que o espírito da duquesa eram duplos olhos tremidos e a clicou assim. Além disso, Man Ray fotografou beldades e, muito, o seu amigo Marcel Duchamp. Uma das fotos mostra o artista vestido de mulher, outra com os cabelos formando chifres de fauno, feitos com creme de barbear. Uma delas sugeriu as possibilidades da futura body art, quando Duchamp cortou seus cabelos em forma de estrela.


Além disso, há trabalhos de quase todos os artistas que participaram ou tiveram afinidade com o surrealismo. Há até decepções possíveis. A escultura de Giacometti “Objeto invisível” nunca acrescentou muita coisa à obra do artista, mas faz parte de qualquer álbum iconográfico do surrealismo. A escolha foi perfeita.


Deve-se elogiar a montagem, apesar dos problemas de espaço do CCBB para uma mostra de tal quilate, e dar parabéns à cenografia, que não desejou, com sensatez, ir mais além do que mostrar as obras, acrescentando um toque saudável de bom humor na abertura, com atores representando alguns símbolos do movimento. Pequenas coisas podem, porém, ser corrigidas. No texto de abertura, a expressão de Breton “cadáver exquis” não se traduz por “cadáver esquisito”. Exquis , em francês, é muito bom, delicioso, delicado, com um charme particular. Max Ernst não é polonês, mas alemão, nascido em Brühl, perto de Colônia, na Alemanha, mais ou menos a 500 quilômetros de distância da mais próxima fronteira polonesa. Meret Oppenheim não é americano. Nasceu em Berlim em 1913 e é mulher (“A mulher mais desejável que conheci”, disse um expert no assunto, Man Ray). É gafe chamar Jean Arp de alemão, embora tenha nascido na Alsácia, que desde da derrota dos franceses na guerra prussiana de 1871 ficou sendo território alemão, até o Tratado de Versalhes, de 1918. Não é erro, mas a turma da Catalunha — como Miró, por exemplo — não gosta de ser chamado apenas de espanhol. E não há, como consta de uma legenda, algo como artista “belgo”. O sujeito é belga tal o canário.


Fora estes pequenos detalhes, “Surrealismo” é magnífica, com bastante informação e muita coisa para ver e aprender, não faltando a parte brasileira, onde domina a escultura “Impossível”, de Maria Martins, uma possível tradução surrealista do agressividade do ato sexual entre macho e fêmea, além das pinturas de Tarsila do Amaral, as aquarelas de Cícero Dias e — como curiosidade — uma fotomontagem do poeta Jorge de Lima. Como há muita psicanálise no surrealismo, pode-se pensar, como disse o doutor Jacques Lacan, um psicanalista formado na atmosfera intelectual do movimento e amigo de muitos componentes do grupo, que amar é dar o que não se tem. Dar o que se tem é festa. Mérito do CCBB, que fez uma de arromba.

Fonte: Jornal o Globo
27/08/2001