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A arte de todos os lugares e de lugar nenhum
Daniela Name

Ao inaugurar uma exposição nas Cavalariças do Parque Lage, Daniel
Senise volta para casa, mas ao mesmo tempo continua um pouco estrangeiro.
Dividindo-se entre o apartamento e o ateliê em Nova York e temporadas
na casa de Laranjeiras, o artista plástico tem transposto para a
vida a sensação simultânea de estar-e-não-estar que marca sua obra
há anos.
Os dois trabalhos que apresenta a partir de amanhã nas Cavalariças,
dípticos de dimensões monumentais, reproduzem virtualmente na tela
as duas salas do prédio. Quando entrar na galeria, o espectador
vai ter a impressão de enxergar nas obras um retrato do espaço.
Senise estudou as dimensões das salas para reproduzi-las nas telas,
construindo a paisagem cortando e colando pedaços de tecido onde
foram impressos vestígios do piso da galeria, como poeira e minúsculas
folhas.
Artista procura uma saída para a pintura
Os metros e metros de pano foram preparados em dias diferentes,
o que deu a eles uma variação de tons de marrom. A justaposição
de tecidos de cores diferentes faz com que a visão consiga distinguir
o que é porta, parede, piso e teto nas salas virtuais do artista.
— A ida para Nova York me deixou mais focado na minha obra, tenho
trabalhado dentro e fora do ateliê, lido muito, pensado sobre o
que faço — diz ele. -— Minha pintura não tem um tema, mas procura
discutir o tempo todo como é possível continuar pintando.
Assim como todos os pintores que continuam em atividade, Senise
procura uma saída para o esgotamento das experiências do modernismo:
como continuar pintando depois que a representação na tela foi gradativamente
desconstruída por Cézanne, pelos cubistas, pela abstração?
— Temos que voltar para o tempo anterior ao modernismo, mas não
conseguimos fazer isso sem a mediação do seu legado — acredita ele.
— É como se voltássemos a pintar a natureza, mas através de valores
da própria pintura.
Senise faz isso pintando com a própria tela, uma técnica que vem
desenvolvendo desde 1988 e cujos primeiros resultados foram vistos
na Bienal de São Paulo do ano seguinte. Auxiliado por seu fiel escudeiro,
o assistente Manoel Andrade de Souza, unta com cola a superfície
do pano e decalca o chão. Já desenhou o que queria imprimir no piso
(como em “Ex-voto”, de 1991, na qual uma coluna vertebral foi feita
com cola no chão do ateliê), já misturou o processo com a impressão
feita com pregos enferrujados (caso do belo trabalho “Quase infinito”,
hoje na coleção particular do amigo Angelo Venosa), já fez citações
à história da arte (arte etrusca, Giotto, James Abbott, Caspar David
Friedrich).
— Mas estou sempre pintando o vazio, como se a pintura não estivesse
nem aqui nem lá, mas num ponto no meio do caminho — diz ele, que
deixa isso claro na série em que reproduz, com a ferrugem dos pregos,
a trajetória de bumerangues. — A reflexão sobre a história da arte
e as formas de se pintar hoje são inevitáveis. A obra da Beatriz
Milhazes, por exemplo, não é sobre flores. Há ali um pensamento
e uma ironia.
O artista enfrentou um caminho árduo para conseguir tocar em seu
próprio pensamento. Foi aluno da Escola de Artes Visuais do Parque
Lage e explodiu depois da exposição “Como vai você, Geração 80?”,
de 1984. A especulação do mercado na época — que clamava por telas
para vender, depois da longa seca provocada pela arte conceitual
dos anos 70 —- fez com que seu trabalho atingisse cifras milionárias
num curto período.
Suas telas iniciais se encaixavam nas leituras iconoclastas da crítica
da época, que via na figura o principal sintoma da tal volta à pintura.
Seria fácil se acomodar no lucro vindo de obra sob medida para o
período, mas Senise experimentou crise e angústias até chegar ao
decalque do chão, depois de receber a encomenda para um cenário
de teatro sobre o Santo Sudário.
— Houve um tempo em que eu precisei me desintoxicar de dinheiro.
Hoje estou tranqüilo — diz ele.
ZONA INSTÁVEL: a partir de sexta, de 10h às 19h, nas Cavalariças
do Parque Lage (Jardim Botânico 414). Grátis.
Fonte: Jornal OGlobo.com
18/10/2001
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