José Guedes
abre mostra em São Paulo
São Paulo - Na exposição que
inaugura amanhã à noite na Galeria Nara Roesler, José Guedes
mostra de forma mais completa a pesquisa que o público já
teve a oportunidade de conhecer, de forma seleta, na mostra
em comemoração aos 50 anos da Bienal de São Paulo e na exposição
Rede de Tensões, em cartaz no Paço das Artes. Reconstruções
é fruto de um trabalho de registro das imagens refletidas
pelas poças d´água em sua cidade, Fortaleza, que acabou
ganhando um caráter quase obsessivo. Tanto que muitas vezes
o confundem com um fiscal da empresa sanitária local à busca
de vestígios de dengue.
A inversão é o mote dessa
investigação. O que poderia ser repugnante e ter um caráter
de denúncia do descaso com as ruas da cidade - afinal, as
poças que servem de espelho para Guedes se acumulam nos
meios-fios maltratados, esburacados - torna-se belo. O que
poderia ser só um registro fotógrafico é, na verdade, muito
mais próximo do discurso pictórico, com um cuidado impressionante
de cor, de tratamento da textura da imagem e, principalmente,
de uma lógica compositiva impecável.
Além disso, há também a inversão
no sentido mais explícito do termo, já que o artista - que
divide seu tempo entre sua pesquisa pessoal e a administração
do Departamento de Artes Visuais do Centro Dragão do Mar,
que tem levado uma intensa programação a Fortaleza - inverte
a lógica da imagem, ao orientar-se pela posição do reflexo
e não do olhar do espectador. Explicando melhor: quando
olhamos uma poça, vemos as imagens refletidas ao contrário.
Na obra de Guedes ocorre o contrário já que, como ele próprio
diz, "o virtual é que assume o centro".
Agindo dessa forma, ele diz
pretender "colocar mais poesia no mundo". O fato de trabalhar
em Fortaleza, uma das cidades mais iluminadas do mundo,
facilita seu trabalho, dando à obra uma luminosidade e um
contraste quase mágico - que o artista reforça com um tratamento
digital à imagem. Guedes discorda que com esse seu procedimento
esteja procurando resgatar uma certa ingenuidade do olhar.
"Eu apenas procuro transformar o mundo em algo mais ameno",
diz. Como escreveu o crítico Tadeu Chiarelli em um dos catálogos
do artista, ele traz uma visão poética, mas nunca alienada,
da urbanidade.
José Guedes. De 2.ª
a 6.ª, das 10 às 19 h; sáb., das 11 às 15 h. Galeria Nara
Roesler. Av. Europa, 655, tel. 3063-2344. Até 18/8. Abertura
hoje, às 21 h.
Fonte: Jornal
Estadão
02/08/2001