Ivald
Granato usa a cabeça para fazer viagem pela história da arte
Daniela Name
Ivald Granato resolveu fazer
uma viagem pela história da arte. E transformou a cabeça
em bagagem e meio de transporte para a expedição. Em “Heads”,
exposição que o Espaço Cultural dos Correios inaugura hoje,
o artista conversa com os princípios da gravura, da pintura
e da escultura nas muitas variações de uma mesma forma —
uma cabeça de perfil. Granato apresenta 125 obras (entre
pinturas, desenhos, objetos, múltiplos, instalações e esculturas)
e deixa claro que mestres como Da Vinci e Matisse freqüentaram
suas rodas de bate-papo com a história da arte nos últimos
anos.
— Estava quieto no meu canto,
mas chega um momento que você tem vontade de se testar novamente.
As cabeças são uma sacudida muito importante, um marco —
diz o artista, que fundou o engraçado jornal “Peru molhado”
na Búzios dos anos 80.
Granato nasceu em Campos, em
1949, e foi na cidade do norte fluminense que começou a
fazer seus primeiros desenhos, com forte influência dos
pintores cubistas. Entre 1966 e 1967, estuda com Robert
Newman e passa para a Escola de Belas Artes da UFRJ. Nunca
deixou de pintar, mas, a partir dos anos 70, faz um grande
mergulho na multiplicidade e passa a explorar a tridimensão
e a performance. Alguns de seus trabalhos na rua ficaram
famosíssimos, como “Artur Granato — O milionário”, “Neuzinha
Brizola” (realizado no MAM do Rio), “Safada de Copacabana”
e “O gaiato”.
Na mostra nos Correios, dois
outros craques da pintura e da cor — Roberto Magalhães e
Rubens Gerchman — assinam textos de apresentação. Gerchman
o compara a Rod Steiger e Bocage e diz que Granato é o performer
n 1 do país. Já Magalhães, que tem em comum com o artista
a criação de seres fantásticos, elogia sua inquietação.
“Granato não se contém. Ele
explode a cada momento. Ele é uma bomba de tinta revestida
de pele. Seu corpo se transforma em estilhaços de cor que
se projetam com toda força sobre a tela, onde aparecem criaturas
que habitam a imaginação do artista”, escreve Magalhães,
para depois concluir que os tais “estilhaços” só dão certo
porque fazem parte da carreira de alguém que provou “todas
as oportunidades plásticas de nossa época”.
E Granato parece experimentar
tudo sem cansaço ou prevenções. Apontado como um dos precursores
da Geração 80, ele foi um dos artistas que prepararam o
terreno para a “volta da pintura” alardeada naquela época.
Para ele, no entanto, a pintura nunca deixou de existir:
— O que acontece às vezes
é que determinado tipo de manifestação precisa de umas férias,
de um repouso. É como se uma grande banda de rock, como
os Stones, terminasse uma turnê e precisasse de recolhimento
para fazer um novo disco.
Fonte: Jornal
O Globo
25/07/2001