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Iole de Freitas, em mostra individual
Maria Hirszman

Exposição será inaugurada nesta quarta-feira à noite no Gabinete de Arte Raquel Arnaud

São Paulo - A densidade do ambiente criado por Iole de Freitas em sua mais recente exposição individual na cidade, que será inaugurada nesta quarta-feira à noite no Gabinete de Arte Raquel Arnaud, pouco tem a ver com a pequena espessura e a transparência que predominam nas placas de policarbonato que se tornaram há algum tempo sua matéria predileta. Por meio de oito esculturas feitas de lascas de planos translúcidos, transparentes, reflexivos ou de intensos vermelhos e roxos, a artista conseguiu tornar mais tangível o ar que os envolve, como se destacasse as outras dimensões que sabemos existir, mas ignoramos por não tocar ou sentir.

Parados, na entrada da galeria, temos a sensação de que se trata de um conjunto quase sólido, que tememos romper com nosso deslocamento. Realmente, a dinamização do espaço é quebrada com o nosso deslocamento, mas ele é essencial para que se possa descobrir pouco a pouco as várias facetas e cortes dessas obras. Unidos por pequenos elos de arame, em ângulos curiosos e diversos, e feitos de diferentes combinações de cores potentes e transparências (variando do absolutamente transparente a uma superfície altamente reflexiva, que ofusca e espanta o olhar), os trabalhos vão talhando o espaço, diminuindo a tensão inicial e ganhando autonomia.

Como pinturas que dançam no espaço, essas "dobraduras" - que povoam a sala longa e estreita que constitui o espaço principal da galeria - dialogam de maneira interessante com a produção anterior de Iole bem como com uma série de referências nacionais e internacionais eleitas por ela em sua longa e bem-sucedida carreira. Como lembra Paulo Sergio Duarte no texto que apresenta a atual exposição, não se pode falar no trabalho de Iole sem lembrar a profunda atenção dispensada pela artista ao construtivismo (com especial ênfase sobre os russos). Há também, por exemplo, uma evidente relação entre esse trabalho e os relevos espaciais de Hélio Oiticica.

No entanto, a melhor maneira de compreender a atual pesquisa de Iole de Freitas é vê-la inserida em sua própria trajetória, num rico contexto criativo que combina a expressividade da dança (sua primeira forma de expressão artística) com as investigações conceituais dos anos 70 e um fascínio pelos mistérios da ciência.

A artista faz questão de ressaltar, por exemplo, a relação entre esses trabalhos e suas experiências em que buscou explorar os vários planos que se projetam numa profundidade para além do espelho. "Enquanto nos filmes tudo fica condensado na película, nesses trabalhos as várias superfícies existem realmente. Você se vê no reflexo, mas também vê o que tem por trás e o que está além", explica.

Sua geometria é falha, as chapas que se sustentam precariamente pendidas do teto ou repousadas no chão, descambam. A retidão dá lugar a uma pequena barriga, a uma pequena sugestão das ondas que constituem a base das imponentes esculturas que Iole vem desenvolvendo nos últimos anos. Um pequeno exemplo dessas esculturas, em que a artista força o policarbonato a desenhar-se de acordo com uma linha firme que se insinua no espaço, está em exibição no local, na mostra coletiva organizada nas salas do fundo da galeria. Um exemplo ainda mais marcante desse trabalho, ao mesmo tempo barroco e rigoroso, que potencializa o espaço no qual se encontra, também pode ser visto no Centro Universitário Maria Antonia até 3 de novembro.

Inicialmente, a idéia de Iole era sobrepor no mesmo local suas duas linhas de trabalho, mas a opção por deslocar a escultura em que a linha desenhada em aço inox ainda comanda o movimento da peça para um local distinto acabou revelando-se acertada, já que permitiu às obras mais recentes ocupar de maneira mais impactante e corajosa o espaço principal, reafirmando com isso a possibilidade dessa exposição sinalizar um novo rumo em sua poética.

É interessante notar como esses trabalhos são ao mesmo tempo aparentados e distintos. Nas lascas, a artista evita qualquer representação orgânica, qualquer referência às formas do corpo. Mergulha mais fundo em sua pesquisa construtiva e em sua investigação sobre a relação da obra com o espaço que a cerca. Mas a característica central de sua poética permanece intacta. Ela pode ter se livrado da representação do corpo, mas continua fazendo as formas dançarem no espaço, dando-lhes visibilidade e beleza.

Serviço - Iole de Freitas. De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das 11 às 14 horas. Gabinete de Arte Raquel Arnaud. Rua Artur de Azevedo, 401, São Paulo. tel. 3083-6322. Até 11/10. Inaugura quarta, às 20 horas

Fonte: Jornal Estadão
17/09/2002