NOTÍCIAS
 

Humanidade e intimidade no exílio
Wilson Coutinho

Nos anos 40, o Rio de Janeiro recebeu o artista húngaro Arpad Szenes e sua mulher, a portuguesa Maria Helena Vieira da Silva, os dois naturalizados franceses em 1956. Estavam morando em Lisboa, mas Szenes, um judeu, não recebeu passaporte português. Salazar flertava com o nazismo, cujo exército parecia imbatível na Segunda Guerra Mundial. Hitler entrou em Paris com a mesma facilidade com que se vai beber um cafezinho na esquina. Eram anos sombrios. O casal instalou-se, com pouco dinheiro, numa pensão em Santa Teresa.

Outros artistas também aportaram por aqui. O escritor católico francês Georges Bernanos morava em Barbacena. Vinha cuidar de sua depressão num consultório no prédio em cima do restaurante Amarelinho, onde podia encontrar-se com o poeta, médico e também católico Jorge de Lima. O caso mais trágico foi o suicídio do romancista austríaco e autor de populares biografias Stefen Zweig, em 1942, em Petrópolis. O japonês Foujita também esteve aqui, influenciando certas pinturas de Portinari, e o alegre americano Alexander Calder veio e não fez discípulos. Em compensação, carregou uma pilha de discos de samba, que serviam para ele “sambar” ao redor do mecanismo do seu “Circo”.

A mostra “Período brasileiro: Arpad Szenes e Vieira da Silva” revela que o exílio deve ter sido penoso, principalmente para a pintora. A luminosidade do Rio não atingiu suas telas: os tons são baixos, ocres, alguns melancólicos. As obras mais trabalhadas são as do marido, cujo amor pela artista e pelo seu trabalho aparece nas duas melhores telas da exposição, retratando a mulher pintando: “Maria Helena VII”, um curioso espaço trabalhado com uma curva, diagonais e retângulos, e “Maria Helena X”, a artista debruçada sobre a tela, pintando, com o uso dos mesmos efeitos da curva e de retângulos. Tais obras exibem a habilidade de Szenes, embora sinta-se na invenção que Vieira da Silva é uma artista mais forte.

Há uma série de obras dela com o jogo de xadrez, que seria, por um período, fundamental para a composição de suas pinturas. Os dois pintaram, também, um conjunto sobre os “desastres da guerra” —- assunto que os deprimia como europeus e humanistas. Voltando para Paris, depois da guerra, Vieira da Silva caiu nas graças das instituições francesas. Portugal, que não é burro, recuperou-a para a sua história.

A mostra na Casa França-Brasil tem um tom intimista e apresenta, de certa forma, as dificuldades de dois exilados nos trópicos, atenuadas, talvez, pelo amor que os unia na fragilidade psicológica e na penúria econômica. O problema das mostras na França-Brasil continua sendo a rotunda que cisma, por meio da luz que a penetra, invadir os vidros e as obras dos artistas.

O espectador tem de fazer, com indulgência, a abstração disto e contemplar dois grandes artistas que pertencem, afinal, ao vigor da Escola de Paris. Embora Vieira da Silva lembre, em algumas obras, o país em que nasceu, há o esforço para não pensar no fascismo e no provincianismo de Salazar, que achava Portugal um bom lugar para viver, desde que seus habitantes cuidassem, apenas, das couves para o caldo verde.

Fonte: Jornal Globo
06/08/2001