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Um toque de Hitch
Hugo Sukman

Por acaso, mas talvez nem tanto, a exposição “Hitchcock et l’art: coincidences fatales” (“Hitchcock e a arte: coincidências fatais”), em cartaz desde a semana passada no Centro Georges Pompidou de Paris, foi montada na sala ao lado de outra exposição, “Les anées pop”, uma viagem pela arte e pelo período pop, 1956 a 1968. Mas se esta, que traz obras de Andy Warhol e seus comparsas, por melhor que seja, deixa um certo mal-estar por ser uma arte que pretendia a rua e acabou seus dias no museu, a divertidíssima exposição que relaciona o cinema de Alfred Hitchcock com a arte e as idéias do século XX é justamente o seu oposto: ganhou as ruas, ou melhor, os mais reles cinemas de bairro, e é celebrada agora gloriosamente no museu, em exposição que fica em cartaz até o dia 24 de setembro.

Nunca é demais lembrar que até a segunda metade dos anos 50, ou seja, quando mais da metade de sua obra já estava realizada, Hitchcock era considerado apenas um gordo engraçado, com fama de tarado por louras, hábil em assustar as pessoas no cinema (o que lhe valeu a redutora alcunha de “mestre do suspense”) e faturar muitos dólares para os produtores de seus filmes. Foi então que a jovem crítica francesa reunida na revista “Cahiers du cinéma” descobriu e revelou ao mundo: aquele clown era um autor, um inventor, um artista, um herdeiro da arte e do pensamento modernos.

Isso tudo é uma teoria que, de forma bem leve, a exposição vem comprovar, revelando em alguns casos, ou supondo em outros, coincidências entre o cinema de Hitchcock e as artes de sua época.

Exposição mostra as coincidências subjetivas e as óbvias

O foco da exposição é o da coincidência: um quadro de Georges Braque, por exemplo, “Os pássaros negros”, de 1956, como um gerador visual dos aterrorizantes “Os pássaros”, filme de Hitchcock de 1963. Um fotograma de “Os pássaros” ao lado do quadro de Braque é uma irresistível coincidência estética, ainda mais quando se sabe que Hitchcock amava a obra de Braque.

— Não queríamos que a exposição acontecesse em detrimento do prazer que as pessoas sentem quando se lembram ou vêem um filme de Hitchcock — diz Dominique Paini, um dos curadores da exposição. — Tentamos, então, achar as evocações, os substitutos da atmosfera hitchcokiana, como a inquietude, o erotismo, o sonho, o espetáculo. Assim, quando o espectador vê o quadro de Braque, faz a sua própria projeção cinematográfica por aproximar esta obra a uma seqüência do filme.

O objetivo é mostrar as coincidências — muitas inteiramente subjetivas, outras óbvias de arrepiar, como a cenografia de “Um corpo que cai” (“Vertigo”) com a tela “Vertigo”, feita por Felix De Boeck em 1920 — mas vai muito além: é mostrar todos os pontos de contato de um artista visual mais conhecido pelas histórias que contava, Hitchicock, com artistas visuais que raramente são associados a qualquer forma de conteúdo, os artistas plásticos do século XX.

Mas a exposição não se resume a explorar as coincidências: é um passeio pelo universo visual e simbólico do diretor. Um criador de formas, neste sentido poeta, é assim que Jean-Luc Godard descreve Hitchcock no texto retirado do livro-filme “Histoire(s) du cinéma”, que abre a exposição, um dos mais belos já escritos sobre cinema (quadro ao lado) — Godard, não por acaso, é um daqueles jovens críticos franceses.

Fonte: Jornal O Globo