Happening
para saudar Dalí, Breton e cia.
Daniela
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Os canhões de luz que iluminavam a Candelária e o mergulhão
da Praça Quinze já davam uma pista de que não se tratava
de uma inauguração comum. O vernissage de “Surrealismo”
— exposição que o Centro Cultural Banco do Brasil abriu
na segunda-feira à noite, para convidados, e ontem, para
o grande público — não foi uma abertura tradicional, daquelas
estreladas por canapés e vinho branco. O CCBB e a RSB, produtora
da mostra, organizaram performances que procuraram recuperar
os happenings surrealistas. E fizeram boa parte das cerca
de mil pessoas que compareceram o evento deixarem a visita
à exposição para a última hora.
Os convidados eram recebidos por recepcionistas com seios
postiços presos em angelicais vestidos azuis. Atores usando
máscaras negras — numa menção às performances de Marcel
Duchamp — fraque e chapéu coco à la Magritte desfilavam
pelo foyer com gaiolas e abajures na cabeça.
O grupo simulou ainda um casamento surrealista, em que uma
penca de pretendentes disputava a noiva, também mascarada
e usando um vestido feito de plástico bolha, usado para
embalar obras de arte. O buquê era um generoso ramo de brócolis.
— A idéia era transformar a inauguração num acontecimento
a mais, que ajudasse a compreender os conceitos do surrealismo
— explicou Martha Pagy, diretora de artes visuais do CCBB.
Os garçons do bufê Flávia Quaresma também eram uma atração
à parte. Alguns usavam roupas de mergulhador, com direito
a máscara, snorkel e pé-de-pato. E dois ganharam figurinos
inspirados em Magritte, mas as duas possibilidades de cor
do terno — o tradicional preto ou um nada discreto rosa-shocking
— provocou rusgas na equipe.
— Cheguei cedo para pegar um preto, porque não sou bobo.
Quem chegou atrasado teve que se contentar com o rosa. Eles
não ficaram bonitinhos? — ironizava um deles.
Os jovens artistas plásticos que compareceram à inauguração
brincavam dizendo que os garçons cor-de-rosa — que usavam
a cor para combinar com o peixe-símbolo da mostra — pareciam
dançarinos de tango ou integrantes da Velha Guarda da Mangueira.
Flávia Quaresma, que também fez questão de servir aos convidados,
contemporizou.
— Eles realmente ficaram intimidados de usar o terno rosa,
mas depois viram que este era o espírito da inauguração
e passaram a brincar com o figurino — disse ela, que foi
buscar a matéria-prima para o bobó de cará, a grande estrela
do menu, na feira de São Cristóvão. — É o melhor do Rio,
com a casca fininha e o interior suculento.
Convidados como os artistas plásticos Carlos Vergara, Tatiana
Grinberg, Afonso Tostes, Luiz Aquila, Tunga e Rubem Grilo,
o diretor do Paço, Lauro Cavalcanti, e a diretora do Museu
Chácara do Céu, Vera Alencar, também se divertiram nos sofás
em forma de bocas vermelhas inspirados nos lábios de Lou,
personagem de Rubens Gerchman. Sentados nas bocas, leram
textos surrealistas e descansaram da maratona pelas salas.
— O movimento Dada tem muito mais importância que o surrealismo
— disse o poeta Waly Salomão, que adorou a sala dedicada
ao filme “L’age d’or”, de Buñuel, mas discordou da seleção
de algumas peças pela curadoria. — Duchamp e Jean Arp não
deveriam estar na mostra, porque não são surrealistas típicos.
Vera Alencar e o crítico Carlos Martins aprovaram o que
viram. Para a diretora do Chácara do Céu, é preciso conhecer
o surrealismo para julgá-lo. Já Martins, que foi curador
da mostra “Brasil redescoberto”, disse que a exposição é
a primeira a dar um “caráter museológico” ao CCBB:
— Quem vem à mostra pode fazer muitas leituras do movimento,
porque há fotografias, filmes e documentos que dão suporte
a uma compreensão histórica. Os surrealistas podem não ter
influenciado diretamente a arte visual brasileira, mas percebe-se
seu impacto em outras áreas, como na montagem de “Vestido
de noiva”, de Nelson Rodrigues.
Ontem, no primeiro dia da exposição para o grande público,
filas se formaram no foyer na subida para as salas onde
estão as obras.
Fonte:
Jornal Estadão
22/08/2001