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A simbologia de Marcelo Grassmann em exposição
Maria Hirszman
Esta é a segunda individual do artista em 2002 e a primeira
em que mostra uma série inédita de desenhos na recém-aberta
galeria Augusta 664
São Paulo - Os admiradores de Marcelo Grassmann têm
motivos para comemorar: o artista não apenas está
inaugurando nesta segunda-feira sua segunda exposição
individual de 2002 como está exibindo uma série inédita
de trabalhos. São 43 desenhos recentes, na maioria inéditos
e bastante provocantes, de uma sexualidade muitas vezes explícita,
que mantêm uma estreita relação com a série
anterior da morte e da donzela (uma espécie de apelido, já
que a Grassmann não agradam os títulos ou qualquer
outro tipo de referência que induza a percepção
do espectador).
Tudo começa com uma imagem bastante singela, de uma figura
semelhante à da morte oferecendo uma flor a uma jovem, mas
rapidamente essa corte singela assume características sexuais
bastante explícitas, que revelam como o universo criativo
de Grassmann continua pulsante e vigoroso.
Aliás, a exposição que será inaugurada
amanhã à noite, na recém-aberta galeria Augusta
664, em São Paulo, é repleta de exemplos de como é
rico de associações simbólicas, pulsões
inconscientes e narrativas ao mesmo tempo assustadoras e fascinantes
o universo do artista considerado por muitos o maior gravador vivo
do Brasil.
A mostra, aliás, contextualiza bem a importância histórica
de Grassmann ao associar de maneira bastante instigante a série
de desenhos recentes e alguns exemplos aleatórios do traço
do artista, selecionados pelo curador Antonio Carlos Abdalla, com
uma exibição de seu processo de trabalho como gravurista.
No segundo andar da galeria foram instalados não apenas
uma seleção de gravuras em metal, como uma série
de provas anteriores à versão final e as respectivas
matrizes trabalhadas por ele. "De fato, a gravura é
uma arte de idéias e arrependimentos", explica o artista
ao comentar a tênue diferença entre as várias
etapas do processo de gravação de uma imagem.
E esse processo Grassmann conhece bem. Ele realizou suas primeiras
gravuras há mais de meio século. Começou com
xilo (matriz de madeira) por absoluta falta de material e por já
ter alguma experiência no trato do material, adquirido no
curso profissionalizante de entalhe de madeira, um dos poucos que
fez na vida - sua formação é basicamente autodidata.
Ele também desenvolveu trabalhos usando a pedra como matriz,
mas o metal, com sua precisão, acabou dominando. A primeira
prensa foi comprada em 1954. Se ao longo desse período a
técnica e os conhecimentos sobre gravura foram se aperfeiçoando,
seu universo imagético permaneceu o mesmo. Belas donzelas,
cavaleiros medievais, animais e bestas como dragões e gatos:
estas foram imagens repetidas por ele à exaustão.
Uma das referências que cita são as ilustrações
feitas por Doré para obras clássicas, como D. Quixote
e a Divina Comédia. "Elas ainda estão reservadas
na minha memória." Seria reducionista apresentar Grassmann
como um adepto do surrealismo e do expressionismo. Ele evidentemente
pertence ao clã de artistas que inclui Goya e Picasso (curiosamente,
apesar da ascendência alemã, suas obras mais parecem
saídas de histórias espanholas medievais). Mas se
recusa a explicar, quer pela história da arte, quer pela
psicanálise, suas preocupações.
"O leitor da obra é um criador, tanto quanto o artista.
Ele também briga com a imagem que aceita ou não e
se você explica muito castra a possibilidade criativa do observador.
É como em Rashomon, de Kurosawa: cada um tem sua versão",
explica. Sua motivação não é nem narrativa
nem técnica. É emocional. Tudo decorre do tema, o
tema dos sentimentos humanos.
Marcelo Grassmann - De quarta a domingo, das 11 às 17 horas.
A partir de 19/11, apenas visitas agendadas pelo 3346-4504. Augusta
664. Rua Augusta, 664, São Paulo, tel. 3346-4504. Até
29/12. Abertura, amanhã, às 19 horas
Fonte: Jornal Estadão
12/11/2002
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