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Renovação duplicada em frente ao espelho
Daniela Name

Thiago e Matheus Rocha Pitta

Não fique assustado se dia desses, durante um vernissage qualquer, você enxergar dois garotos idênticos em conversa animada com críticos e artistas plásticos. Nem a imagem dupla nem a animação do papo serão frutos do copo a mais do vinho branco barato que geralmente é servido nestas ocasiões. Os garotos iguais são Thiago e Matheus Rocha Pitta, gêmeos univitelinos que são belas promessas do circuito de arte carioca. Belas e novíssimas: fizeram 21 anos no último dia 11, mas já têm projetos de gente grande.

Thiago é aluno da Escola de Belas Artes da UFRJ e ganhou o prêmio do júri popular no último “Interferências urbanas”, concurso promovido pelo Arte de Portas Abertas, em Santa Teresa, que aconteceu em junho. Seu “Abismo” era uma plataforma de espelho projetada sobre um barranco em frente à entrada do Morro dos Prazeres. A multidão que visitou o bairro durante o Portas Abertas e os moradores da favela eram convidados a caminhar no trampolim, que refletia o céu e tirava todas as referências espaciais do espectador, a não ser pela visão panorâmica do centro da cidade.

Quem experimentou uma vez, como a antropóloga Izabel Ferreira, acabava voltando para receber mais uma vez descargas de medo e curiosidade na mesma voltagem.

— A receptividade do pessoal do morro foi fantástica. Uma senhora crente fez o netinho andar no espelho e ainda me disse que eu era um enviado de Deus, porque fazia as pessoas andarem no céu antes de morrer — lembra Thiago, o mais elétrico, que é quem conta boa parte da história da dupla... e, de vez em quando, deixa o irmão falar um pouco.

Matheus é quieto e pensa muito antes de cada frase, mas foi o primeiro a abandonar o colo da mãe, Anne-Mary. Ela tinha se separado do pai dos garotos, o artista plástico Fernando Pitta, e mudara-se com os quatro filhos — os gêmeos e mais dois meninos — para Petrópolis. Depois da meninice mineira, passada entre o ateliê do pai e as igrejas barrocas, em Tiradentes, ninguém engolia bem aquela rotina de tarde com chuva e chá com a avó inglesa no jardim. E estudar no Rio se tornou uma saída para o amadurecimento e para o tédio. Matheus fez vestibular para geografia, biologia e história, acabou ficando com a terceira opção, mas a faculdade só durou até ele arranjar o emprego como assistente do fotógrafo Pedro Lobo. Depois disso, foi o braço-direito de Miguel Rio Branco e participou da exposição “Geração em trânsito” com uma série de fotos feitas no Fundão.

As imagens em preto-e-branco registram o que o mar devolve para a praia. E Matheus sentiu o estômago embrulhar ao enxergar braços e arremedos de corpos boiando junto com plantas e plásticos.

— Foi barra-pesada — lembra ele, que, antes da fotografia, foi jornalista e crítico. — Tinha 15 anos quando estagiei na “Tribuna de Petrópolis” e me transformaram em crítico de cinema. Só que só passava porcaria nas duas únicas salas da cidade. Acho que só falei bem de “Pocahontas”.

A lembrança provoca uma gargalhada uníssona que enche todo o apartamento da dupla, em Santa Teresa. O riso solto é um ponto comum entre os dois, mas as diferenças são muitas. Thiago coleciona pererecas — de pelúcia, de plástico, de madeira — e, expansivo, conta que já pensou em variações da idéia do espelho. Quer forrar todo o piso da ponte da Igreja de Boa Viagem e construir um muro de espelho numa praia da Baía, para instalá-lo em frente ao mar:

— Tenho o sonho impossível de cobrir os prédios da orla de Ipanema, mostrar a praia refletida nela mesma. Queria fazer um livro cheio de idéias impossíveis dos artistas.

E Matheus, emprestaria um de seus sonhos para engordar o livro do irmão?

— Eu me censuro de idéias impossíveis para poder realizá-las — diz o lado introvertido dos Rocha Pitta.

— Eu e Thiago parecemos diferentes, mas no fundo esta diferença foi construída para que pudéssemos sobreviver.

Em vez de pererecas, Matheus coleciona guarda-chuvas. A coleção brotou da inveja de um modelo de oncinha de uma prostituta paulistana. Uma das peças, compradas na Saara, já tem nome — Goeldi. O batismo aconteceu quando Matheus percebeu que parecia uma gravura do artista, de preto e guarda-chuva vermelho numa tarde cinzenta. Em setembro, ele vai ocupar a fachada do Paço Imperial com objetos feitos a partir de fotos dos holofotes da Igreja de São Pedro de Alcântara, em Petrópolis. Dispostas em caixas do tamanho real dos holofotes, as imagens vão ser postas no chão, para confundir os pedestres.

Fonte: Jornal O Globo
27/07/2001