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Bienal de SP começa a ganhar forma
Jotabê Medeiros

Começa a tomar forma nos três andares do Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque do Ibirapuera, zona sul da capital paulista, a 25.ª Bienal de São Paulo, que será realizada entre os dias 23 de março e 2 de junho de 2002. Salas e instalações já prontas convivem com outras em montagem, com operários, arquitetos, engenheiros, curadores e artistas trabalhando intensamente para erguer o conceito do curador-geral Alfons Hug, Iconografias Metropolitanas.


Logo na entrada, duas "obras", por assim dizer, já ilustram o tema e também prometem controvérsia - o combustível por excelência de toda bienal. A primeira são as duas imensas torres de tubulações metálicas na entrada da mostra, na praça em frente da Avenida Pedro Álvares Cabral.


"Desenhei essas torres como uma representação da lâmina moderna paulistana, uma forma de citar nossa própria cidade", diz o arquiteto Mário Biselli, responsável pela instalação da 25.ª Bienal.


Assemelhando-se à entrada de uma feira de negócios, as torres contêm painéis na parte superior que serão preenchidos com logotipos dos patrocinadores do evento. Uma lona suspensa no espaço entre as torres abrigará a recepção do evento, com bilheterias, monitorias e toda a estrutura de acesso. Certamente, oferece um atrativo a mais para que a bienal consiga fechar as cotas de patrocínio.


O outro cartão de entrada que promete gerar discussão é parte do conceito da mostra. O artista baiano Marepe instalou um ready-made temporão logo à esquerda da entrada principal da bienal, que vai ficar no 3.º andar. Trata-se de um imenso muro de tijolos arrancado de algum recanto de Salvador e exposto au naturel. Na ruína de muro de Marepe, há um resto de um slogan comercial com a inscrição: "Tudo no mesmo lugar pelo menor preço."


A bienal começa a tomar forma. Adiante do muro de Marepe estão imensos cones de madeira compensada criados pelo cearense Eduardo Frota. Construídos com círculos concêntricos, os cones parecem uma divertida fusão entre optical art com os chamados "penetráveis", e têm um caráter lúdico.


Pelo espaço de 30 mil metros quadrados da exposição, espalham-se salas cheias de areia, outras com quadros cobertos. São muitas exigências e equações de espaço para resolver. "Alguns querem que suas obras sejam vistas de cima", explica Biselli. Os artistas suíços pediram torres com elevadores hidráulicos. O grupo que representa a capital venezuelana, Caracas, está construindo um pavilhão de luz dentro da mostra.


Dentro das salas especiais, ainda em fase de montagem, não haverá mais a tradicional seleção histórica (artistas consagrados como Monet, Degas, Portinari), mas um grupo de provocadores. Estão lá os artistas Carlos Fajardo, Karim Lambrecht, Nelson Leirner, Julião Sarmento, Sean Scully, Thomas Ruff, Jeff Koons e Vanessa Beecroft. As salas especiais estão separadas do conjunto da exposição por um portal oval e paredes de vidro.


Nem todas as exposições das salas especiais, no entanto, serão fundadas em instalações mirabolantes. O alemão Thomas Ruff, por exemplo, segundo conta Mário Biselli, planeja uma simples exposição de fotografias. Ele fotografou a obra do arquiteto Mies Van der Rohe na Alemanha. "O impacto está no modo como fotografou, no jeito que usou a luz para revelar a obra do arquiteto", ressalta Biselli.


Um exame aguçado no elenco convidado para a 25.ª Bienal sugere que a mostra vai em temas candentes da atualidade. Um dos convidados é o palestino Sliman Mansour, ganhador do grande prêmio da Bienal do Cairo em 1998 por seus trabalhos intitulados I Ismail. Diretor do Al-Wasiti Art Center de Jerusalém, Mansour é um ativista artístico que corre o mundo falando sobre a tradição artística palestina. Em dezembro de 2000, esteve em Nova York propondo uma discussão sobre o que chama de A Arte da Intifada.

Outra convidada, a iraniana Shirin Neshat, denuncia a discriminação contra as mulheres nos países muçulmanos. Sua arte provoca reações fortes. O recém-inaugurado Centro Cultural Tomie Ohtake, na Vila Madalena, tinha previsto trazer uma exposição de Shirin a São Paulo. Impressionados com a onda antiislâmica que sucedeu os atentados em Nova York, os patrocinadores desistiram de apoiar a mostra.


Pela série de fotografias Mulheres de Alá, a revista Time a saudou como uma das grandes revelações das artes visuais na atualidade. Aos 43 anos, Shirin foi aos Estados Unidos com uma bolsa de estudos para artes, em 1979. Estourou a revolução islâmica no Irã e ela só pôde voltar ao seu País 11 anos depois. Além de fotos, produziu recentemente uma elogiada série de instalações de vídeo - Turbulent (1998), Rapture (1999) e Fervor (2000) -, um trabalho que fez furor durante recente mostra na Serpentine Gallery de Londres.


O artista plástico brasileiro Arthur Omar foi ao Afeganistão em busca de destroços das estátuas gigantes dos Budas, implodidas pelo regime taleban no ano passado. O artista vai mostrar o resultado de sua viagem no programa Fantástico, da TV Globo, no domingo. Omar é um dos selecionados para o pavilhão da 12.ª Cidade, a Cidade Utópica que resume o conceito do curador Alfons Hug.


Antes de chegar à 12.ª Cidade, o visitante vai passar pelas visões artísticas de 11 metrópoles do mundo (Berlim, Caracas, Istambul, Joanesburgo, Londres, Moscou, Nova York, Pequim, São Paulo, Sydney e Tóquio), todas representadas por grupos de artistas nascidos nessas cidades.


O arquiteto Mário Biselli crê que serão necessárias pelo menos três visitas à bienal para que o visitante consiga apreciar com atenção. Numa primeira visita, daria atenção às representações nacionais - os artistas indicados por seus países para representá-los. Em seguida, destacaria o tema central da mostra, Iconografias Metropolitanas, o mapeamento artístico das grandes cidades. E, finalmente, o espectador se deteria nas instalações especiais, que destacam os "medalhões" da exposição, como Kara Walker, Vanessa Beecroft, Jeff Koons e Sean Scully.

Fonte: Jornal Estadão
18/02/2002