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Folia artística rompe a barreira dos museus

Daniela Name

Performance GOLD EXCHANGE


Não foram vernissages comuns, apesar do vinho branco típico servido nestas ocasiões. A inauguração do projeto Rio Trajetórias, na segunda-feira, transformou três instituições da cidade — Castelinho do Flamengo, jardins do Museu de Arte Moderna e Funarte/Palácio Gustavo Capanema — em palcos para a experimentação.


A folia de 60 artistas do Brasil e do mundo vai durar o mês inteiro e ontem deu mostras de que tudo o que não deseja é se limitar ao espaço dos museus: na hora do almoço, Bob N apresentou seu trabalho para o projeto: armou uma barraquinha em frente ao Centro de Arte Hélio Oiticica para servir angu para as prostitutas e a população de rua dos arredores da Praça Tiradentes. Uniformizado com uma camiseta com as inscrições “Angu do Bob”, o artista repete a performance hoje (na Igreja da Penha), amanhã (na Praça Serzedelo Corrêa, em Copacabana) e sexta-feira (no calçadão de Campo Grande), sempre às 12h30m.


— Quis usar o angu porque ele é a comida mais simples que existe. O nome “Angu do Bob” foi apropriado ao trabalho a partir das brincadeiras dos amigos — explicou Bob N, que participou ativamente das inaugurações de segunda-feira.


No MAM, público verá a República Livre de Fadeland


No Castelinho, Bob filmou a performance de Marcus Abreu, que divide o espaço do centro cultural no Flamengo com artistas como a portuguesa Rosa Freitas, que mostra um vídeo, e os brasileiros Frederico Dalton e Elisa Magalhães, ambos com trabalhos ligados à fotografia. Os jardins e pilotis do MAM estão ocupados por artistas estrangeiros, como Bill Allen, australiano residente em Londres que apresenta a instalação “Plastic museum”, formada com objetos de plástico encontrados nas ruas, que cobrem partes do prédio. Já o alemão Andreas Uhl e o inglês Heather Burnett fundaram uma “embaixada móvel” de um país fictício, a República Livre de Fadeland, em pleno pilotis do museu, instalando à beira-mar um contêiner, onde haverá sessões de vídeo e performances.


A Funarte teve o vernissage mais animado, com obras participativas que mobilizaram os espectadores. Entre elas, a divertida performance “Pequeno coelho”, em que o jovem Eduardo Berliner manipula 20 coelhos movidos a pilha e sua caixas. Com um detalhe: desprovidos de sua pelúcia branca e fofinha, os brinquedos são apresentados através de sua carcaça industrial, preta, com as orelhas desenhadas apenas pela estrutura de arame e as luzes vermelhas que dariam cor aos olhos piscando sem a superfície de acrílico que as cobria. Os bichos, um tanto assustadores e muito engraçados, ficam parecidos com uma mistura de Gremlin, mosquito e esquilo saltitante e fogem ao controle do artista e do público à medida que a performance continua.


— Um dos seguranças aqui da Funarte pediu um bichinho para dar para a filha — disse Berliner, que vai repetir a performance no dia 17, no novo espaço batizado com o nome de seu endereço, Viúva Lacerda 153, aberto no Humaitá para o projeto.


“Lua em escorpião”, criado pela curadora do Rio trajetórias, Cristiana de Melo, foi outro trabalho que contou com a participação de artistas e curiosos na Funarte. Grandes carretéis de linhas coloridas foram dispostos sobre uma tela de tecido negro, onde o público é convidado a bordar seus sentimentos mais negativos. Palavras como “medo”, “solidão” e “vingança” já ganharam forma na obra, que será queimada em performance no MAM na fase final do projeto. Também formou-se uma pequena fila para participar da instalação, sem título, em que Julio Rodrigues brinca com o voyeurismo do espectador. Numa mesa, um globo ocular feito de mármore, com a pupila voltada para cima, convida o público a olhar dentro dele. Mas, quando aceita o convite, o espectador é filmado por uma câmera instalada dentro do globo e conectada a uma TV, que exibe as imagens do voyeur, observado pelos outros ocupantes da sala em tempo real.


— O Rio Trajetórias não pretende ter qualquer papel temático ou curatorial, e sim se abrir para o máximo de participação possível, em todos os níveis — disse Zalinda Cartaxo, que ajudou a selecionar os artistas brasileiros e vai fazer uma instalação na fachada do Museu do Telephone, no Flamengo. — Não há uma definição prévia do que vai acontecer. O que queremos, como o título do projeto diz, é promover um encontro sutil de artistas de várias gerações e com percursos muito distintos, fazendo com que o público possa ter leituras distintas de uma mesma obra.
Hoje, no Bar do Mineiro, um banho de ouro


Zalinda acha que é possível buscar essa interpretação diferenciada de cada espectador tanto em trabalhos que têm uma ocupação mais tradicional do espaço museológico — como as telas de jornal de Luciano Figueiredo e as esculturas de Ricardo Ventura, ambos na Funarte — quanto em performances como “Gold exchange”, realizada pelo Foreign Investment. Formado por cinco artistas de Alemanha, França, Suíça e Áustria, o grupo de moças reveste de ouro pequenos objetos cotidianos e cria para cada um eles certificados de autenticação de qualidade. Em ações seguintes, troca esses objetos por outros, cedidos pelo público. Na Funarte, elas criaram o certificado para objetos já prontos. Hoje à noite, no Bar do Mineiro, em Santa Teresa, pretendem realizar o banho de ouro em outra leva aos olhos do público.

 

 

Fonte: Jornal OGlobo.Com
07/11/2001