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Nossa filha única
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Sombras. de Maria Martins

A cúpula do foyer vai ser transformada num típico céu de Magritte. E Maria Martins é a estrela brasileira que brilha mais forte em meio à poderosa constelação reunida para a exposição “Surrealismo”, que o Centro Cultural Banco do Brasil inaugura no próximo dia 20. Com toques de superprodução, a mostra produzida pela RSB Consultoria e Eventos — e orçada em cerca de R$ 1 milhão — vai ocupar três andares do prédio da Rua Primeiro de Março e reunir obras de Magritte, Picasso, Dalí, Duchamp, Breton, Miró, Man Ray e Picabia. A curadoria é dos franceses Nadine Lehni, conservadora-chefe dos Museus Nacionais da França e ex-diretora do Museu de Belas Artes de Estrasburgo, e Jean-François Chougnet, diretor-geral do centro La Villette, de Paris.

Breton ficou fascinado pela obra de Maria

Maria Martins, a escultora que deixou Marcel Duchamp louco de amor, vai ganhar uma sala só para ela em “Surrealismo e o Novo Mundo”. Sob a batuta da crítica Denise Mattar, o módulo vai mostrar como o estilo atravessou o Oceano Atlântico para influenciar a arte dos Estados Unidos e da América Latina. Breton foi morar no México, ficou amigo de Frida Kahlo e Diego Rivera — haverá uma tela e desenhos de Frida no CCBB — e a influência de tudo o que fazia na Europa vai ter ecos muito fortes na obra de artistas como o cubano Wilfredo Lam e o argentino Antonio Berni, incluídos na exposição. No Brasil, no entanto, o furacão surrealista tem o impacto de uma brisa.

— No Brasil, o modernismo vai chocar-se diretamente com o surrealismo, já que, no “Manifesto antropofágico”, Oswald de Andrade vai propor que se devore tudo o que vem de fora para dar à luz outra cultura — diz Denise. — Mario de Andrade vai até fazer campanha contra o surrealismo, porque vai opor a razão em que acredita ao inconsciente (taxado de irracionalismo) presente nas obras surrealistas.

Denise acredita que o impacto do surrealismo foi sentido na obra de artistas como Tarsila do Amaral, Cícero Dias, Ismael Nery e Flávio de Carvalho — neste último caso, principalmente na atitude, já que Flávio era ateu e fazia performances usando um saiote que batizara de “traje masculino para o verão”. Mas, segundo a curadora, tal influência é sempre tangencial, o que não ocorre com a obra de Maria. Para Denise, quem se defrontar com a força aterradora de esculturas como “Impossível”, “Cobra-grande” e a sugestiva “Não se esqueça que eu vim dos trópicos” vai estar diante de uma legítima surrealista:

— Ela unia sensualidade e terror e vai tocar não só nos temas surrealistas, ao vasculhar o mítico e o mágico, como também vai ter uma atitude de vida afinada com o estilo, que compartilhava com Duchamp.

Na parede da sala de Maria, o público verá fotos e escritos reunidos pela escultora num álbum de 1943, época em que expôs na Valentine Gallery, em Nova York, deixando Breton de queixo caído. Em 1947, o papa do surrealismo escreveu sobre ela: “Neste astro que sobe, se inscreve entre todos o nome de Maria. Maria, e atrás dela — ou melhor, nela — o Brasil maravilhoso onde, sobre os mais vastos espaços, neste meio de um século XX ao mesmo tempo embevecido dos seus parcos conhecimentos e por eles sacudido de terror, plana ainda a asa do irrevelado. O Brasil que, nos olhos dourados e na visão própria de Maria, alcança o sonho de amanhã de todos os seus enigmas.”

O “Novo Mundo”, que estará montado no primeiro andar do CCBB, revela ainda nuances pouco conhecidas da obra de alguns artistas, como uma fotomontagem/colagem de Guignard que mais parece uma viagem alucinógena. O módulo funcionará como um cartão de visitas respeitável para uma mostra com muita munição. Diretor da RSB, Romaric Sulger Büel — o francês que já trouxe ao Brasil as mostras de Rodin, Monet e “Picasso, anos de guerra” — diz que “Surrealismo” foi seu maior desafio. Mas aposta que será, também, a exposição mais completa que já realizou no Rio.

— A cidade vai respirar surrealismo durante dois meses (a mostra fica em cartaz até 28 de outubro)

— promete Romaric.— Achei que nós íamos enlouquecer porque a exposição reúne cerca de 300 obras de mais de 40 instituições e coleções particulares, mas todas as peças se encaixaram e vamos construir uma mostra que não só tem uma ambientação surrealista como tem desdobramentos, como um festival de cinema e um ciclo de palestras.

Lábios de personagem de Gerchman viram sofá

A ambientação é mesmo um caso à parte. Além do céu de Magritte e de um mapa-múndi surrealista decorando o foyer, o visitante será obrigado a participar de uma espécie de jogo — o “Siga o peixe” — já que o trajeto da exposição será indicado por pedaços da cabeça, da cauda e das nadadeiras de peixes cor-de-rosa. No elevador, grama artificial. E, na entrada, sofás em forma de boca — tomada emprestada dos lábios de “Lou”, famosa personagem da obra de Rubens Gerchman — onde o público poderá se sentar e ler textos surrealistas projetados no chão. E isso é só a moldura. Obras-primas são as assinadas por Magritte (entre elas, a tela “Le gouffre argenté”) e Picasso (como o desenho “Nu deitado” e a escultura “Cabeça de mulher”) e Dalí (o manjadíssimo “Telefone lagosta” também vem).

— O público vai sentir que o surrealismo é um movimento que ultrapassa a estética e que tem a ver com atitude — acredita a curadora Nadine Lehni.

Fonte: Jornal O Globo
07/08/2001