Nossa
filha única
Daniela Name

A cúpula do foyer vai ser
transformada num típico céu de Magritte. E Maria Martins
é a estrela brasileira que brilha mais forte em meio à poderosa
constelação reunida para a exposição “Surrealismo”, que
o Centro Cultural Banco do Brasil inaugura no próximo dia
20. Com toques de superprodução, a mostra produzida pela
RSB Consultoria e Eventos — e orçada em cerca de R$ 1 milhão
— vai ocupar três andares do prédio da Rua Primeiro de Março
e reunir obras de Magritte, Picasso, Dalí, Duchamp, Breton,
Miró, Man Ray e Picabia. A curadoria é dos franceses Nadine
Lehni, conservadora-chefe dos Museus Nacionais da França
e ex-diretora do Museu de Belas Artes de Estrasburgo, e
Jean-François Chougnet, diretor-geral do centro La Villette,
de Paris.
Breton ficou fascinado
pela obra de Maria
Maria Martins, a escultora
que deixou Marcel Duchamp louco de amor, vai ganhar uma
sala só para ela em “Surrealismo e o Novo Mundo”. Sob a
batuta da crítica Denise Mattar, o módulo vai mostrar como
o estilo atravessou o Oceano Atlântico para influenciar
a arte dos Estados Unidos e da América Latina. Breton foi
morar no México, ficou amigo de Frida Kahlo e Diego Rivera
— haverá uma tela e desenhos de Frida no CCBB — e a influência
de tudo o que fazia na Europa vai ter ecos muito fortes
na obra de artistas como o cubano Wilfredo Lam e o argentino
Antonio Berni, incluídos na exposição. No Brasil, no entanto,
o furacão surrealista tem o impacto de uma brisa.
— No Brasil, o modernismo vai
chocar-se diretamente com o surrealismo, já que, no “Manifesto
antropofágico”, Oswald de Andrade vai propor que se devore
tudo o que vem de fora para dar à luz outra cultura — diz
Denise. — Mario de Andrade vai até fazer campanha contra
o surrealismo, porque vai opor a razão em que acredita ao
inconsciente (taxado de irracionalismo) presente nas obras
surrealistas.
Denise acredita que o impacto
do surrealismo foi sentido na obra de artistas como Tarsila
do Amaral, Cícero Dias, Ismael Nery e Flávio de Carvalho
— neste último caso, principalmente na atitude, já que Flávio
era ateu e fazia performances usando um saiote que batizara
de “traje masculino para o verão”. Mas, segundo a curadora,
tal influência é sempre tangencial, o que não ocorre com
a obra de Maria. Para Denise, quem se defrontar com a força
aterradora de esculturas como “Impossível”, “Cobra-grande”
e a sugestiva “Não se esqueça que eu vim dos trópicos” vai
estar diante de uma legítima surrealista:
— Ela unia sensualidade e terror
e vai tocar não só nos temas surrealistas, ao vasculhar
o mítico e o mágico, como também vai ter uma atitude de
vida afinada com o estilo, que compartilhava com Duchamp.
Na parede da sala de Maria,
o público verá fotos e escritos reunidos pela escultora
num álbum de 1943, época em que expôs na Valentine Gallery,
em Nova York, deixando Breton de queixo caído. Em 1947,
o papa do surrealismo escreveu sobre ela: “Neste astro que
sobe, se inscreve entre todos o nome de Maria. Maria, e
atrás dela — ou melhor, nela — o Brasil maravilhoso onde,
sobre os mais vastos espaços, neste meio de um século XX
ao mesmo tempo embevecido dos seus parcos conhecimentos
e por eles sacudido de terror, plana ainda a asa do irrevelado.
O Brasil que, nos olhos dourados e na visão própria de Maria,
alcança o sonho de amanhã de todos os seus enigmas.”
O “Novo Mundo”, que estará
montado no primeiro andar do CCBB, revela ainda nuances
pouco conhecidas da obra de alguns artistas, como uma fotomontagem/colagem
de Guignard que mais parece uma viagem alucinógena. O módulo
funcionará como um cartão de visitas respeitável para uma
mostra com muita munição. Diretor da RSB, Romaric Sulger
Büel — o francês que já trouxe ao Brasil as mostras de Rodin,
Monet e “Picasso, anos de guerra” — diz que “Surrealismo”
foi seu maior desafio. Mas aposta que será, também, a exposição
mais completa que já realizou no Rio.
— A cidade vai respirar surrealismo
durante dois meses (a mostra fica em cartaz até 28 de outubro)
— promete Romaric.—
Achei que nós íamos enlouquecer porque a exposição reúne
cerca de 300 obras de mais de 40 instituições e coleções
particulares, mas todas as peças se encaixaram e vamos construir
uma mostra que não só tem uma ambientação surrealista como
tem desdobramentos, como um festival de cinema e um ciclo
de palestras.
Lábios de personagem de
Gerchman viram sofá
A ambientação é mesmo um caso
à parte. Além do céu de Magritte e de um mapa-múndi surrealista
decorando o foyer, o visitante será obrigado a participar
de uma espécie de jogo — o “Siga o peixe” — já que o trajeto
da exposição será indicado por pedaços da cabeça, da cauda
e das nadadeiras de peixes cor-de-rosa. No elevador, grama
artificial. E, na entrada, sofás em forma de boca — tomada
emprestada dos lábios de “Lou”, famosa personagem da obra
de Rubens Gerchman — onde o público poderá se sentar e ler
textos surrealistas projetados no chão. E isso é só a moldura.
Obras-primas são as assinadas por Magritte (entre elas,
a tela “Le gouffre argenté”) e Picasso (como o desenho “Nu
deitado” e a escultura “Cabeça de mulher”) e Dalí (o manjadíssimo
“Telefone lagosta” também vem).
— O público vai sentir que
o surrealismo é um movimento que ultrapassa a estética e
que tem a ver com atitude — acredita a curadora Nadine Lehni.
Fonte: Jornal
O Globo
07/08/2001