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Félix Nadar mostra retratos profundos
Nadar foi o primeiro fotógrafo a romper o limite entre
a fotografia artesanal e a artística, captando em imagens
a personalidade de seu vasto leque de retratados
São Paulo - Félix Nadar (1820-1910), cujo trabalho
como retratista pode ser admirado a partir de amanhã no Espaço
Caixa da Paulista, foi sem dúvida uma das grandes figuras
de sua época. A importância de sua obra não
se resume a seu trabalho jornalístico, à inventividade
de suas charges e caricaturas ou a sua fascinante biografia. Ele
conseguiu registrar ao longo de mais de meio século a imagem
e a personalidade de grandes mestres da cultura ocidental, como
Victor Hugo, Eugène Delacroix, George Sand, Jules Verne e
Sarah Bernhardt. Mas, se isso não bastasse, deu uma nova
visualidade à então recente técnica da fotografia.
Como diz Pierre Clemens, um dos diretores da Aliança Francesa
e coordenador da mostra, ele consegue romper a ligação
entre a foto artesanal e a foto artística, buscando refletir
não apenas a cena externa que se apresentava, mas também
o mundo interior de seus retratados. Usando fundos neutros, sem
explorar costumes folclóricos ou poses suntuosas (como era
comum à época) ele buscou atrair o interesse do espectador
para o que havia de essencial na imagem: a personalidade da figura
retratada. "Ele captou a problemática do olhar",
resume Clemens.
O retrato da atriz Sarah Bernhardt, por exemplo, acabou transformando-se
numa imagem emblemática de sua sensualidade, ajudando a manter
a áurea de sedução e fascínio construída
em torno dela. Sua ´clientela´ foi farta e diversificada.
Dentre os brasileiros ele teria retratado d. Pedro II e Santos Dumont,
coincidentemente homenageado com uma exposição que
também será inaugurada amanhã na cidade. Um
de seus mais célebres trabalhos é o retrato que fez
de Victor Hugo morto.
Não só por meio do retrato, Nadar contribuiu para
o efervescente ambiente cultural de sua época. Foi no seu
ateliê, em 1874, que se realizou o célebre salão
dos independentes em 1874, no qual expuseram Monet, Renoir, Degas
e outros pintores que receberam o apelido pejorativo de "impressionistas".
Apesar de muito amigo dos impressionistas, Nadar não partilhou
com eles os preceitos da arte que buscava captar o efeito da luz
sobre o olhar. "Ele percebia que sua técnica era profundamente
diferente da que é própria da pintura, e, se dessa
sua técnica podia nascer um resultado estético, não
haveria de ser um valor tomado de empréstimo à pintura",
escreveu o historiador italiano Giulio Carlo Argan.
Nadar não foi apenas um retratista. São dele as primeiras
fotos aéreas, tomadas de um balão, e desenvolveu uma
série de experiências com iluminação
artificial. Também são dele as primeiras imagens dos
impressionantes esgotos e catacumbas parisienses, personagens de
Os Miseráveis, de Victor Hugo, e que até hoje têm
o status de atração turística. Mas nesta mostra
que após São Paulo segue para Salvador, Brasília
e Rio, só estão presentes as imagens daqueles que
ajudaram a transformar Paris na capital das luzes.
Boêmio e libertário, Nadar começou sua vida
como estudante de medicina, aspiração que abandonou
rapidamente para tornar-se jornalista. Chegou a ser espião
por um curto período de tempo na Polônia e também
fez história no campo do desenho. Um de seus trabalhos mais
célebres é o Panteão Nadar, no qual retrata
mais de 300 celebridades de sua época.
Boêmio e bem-sucedido, ele recebeu grande reconhecimento
ainda em vida - a grande exposição universal de 1900,
por exemplo, realizou uma grande mostra em sua homenagem. Conseguiu
amealhar fortunas, que dispersou de maneira generosa.
Félix Nadar - De segunda a sábado, das 10 às
19 horas; domingo, das 12 às 19 horas. Espaço Cultural
da Caixa. Avenida Paulista, 2.083. tel. 3107-0498. Até 30/5.
Fonte: Jornal Estadão
18/04/2002
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