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Sonho e fantasia à brasileira
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Aquarela de Guignard

Mario de Andrade fazia campanha contra. Dizia que esta história de surrealismo não podia pegar bem, já que uma corrente que fazia a apologia das manifestações do inconsciente contrariava frontalmente os princípios racionais que devem guiar as escolhas de um artista na execução de uma obra. No Brasil antropofágico pós-Semana de Arte Moderna, as influências do estilo chegaram de forma muito tênue. Não houve organização de grupos e nem manifestos alivanhados. Por tudo isso, a curadora Denise Mattar usou critérios mais estéticos que históricos para nortear a escolha dos brasileiros presentes no módulo “Surrealismo e o novo mundo”, que mostra como o estilo saiu da Europa para influenciar a arte dos Estados Unidos e da América Latina.


Além da sala dedicada a Maria Martins, que vivia em Nova York quando conheceu Breton, Denise recheou o segmento dedicado à Argentina e ao Brasil com obras de Tarsila do Amaral, Cícero Dias, Ismael Nery, Flávio de Carvalho e Guignard, entre outros.


— Houve uma escolha geral da curadoria por delimitar a atuação do surrealismo até 1947, por isso não levei em consideração as manifestações tardias que aparecem no Brasil depois disso — explica ela. — A seleção dos artistas aconteceu por características das obras que tangenciam o surrealismo.


Embora nenhum deles seja surrealista de carteirinha, as aproximações soam plausíveis quando se vê “A cuca”, uma das gratas surpresas do segmento. Pintado por Tarsila em 1924, o quadro pertence ao Museu de Grenoble, nunca foi exposto no Brasil e mostra como a artista, assim como os surrealistas, também se apropriava dos mitos de sua cultura. A cuca em questão é o jacaré gigante que também foi perpetuado na obra de Monteiro Lobato. A artista também investiga os sonhos em “O sono” e “Lua”. Cícero Dias segue a mesma linha, mas por um caminho bem mais tortuoso: suas aquarelas se aproximam dos seres etéreos de Chagall, que por sua vez comungava com a fantasia de Magritte e sua turma.


O gauche paulistano Flávio de Carvalho foi escolhido pela atitude contestadora e performática e está presente com uma obra — “A inferioridade de Deus”— embora a nova edição de seu livro “A experiência n 2”, obra fundamental do modernismo, seja uma parceria da exposição com a editora Nau. Guignard aparece com aquarelas e colagens bastante raras, que foram deslocadas junto com as de Jorge de Lima para o segundo andar, onde estão as colagens dos franceses. O atormentado Ismael Nery se aproxima dos princípios surrealistas — e da mexicana Frida Kahlo, também na mostra — pela fragmentação do corpo, que produz obras fantásticas e escatológicas.


— Conceitualmente, Nery não tem nada a ver com o surrealismo, porque era católico e os surrealistas vão rejeitar a Igreja, a família e a pátria — assinala Denise. — Frida também fazia questão de dizer que sua obra era um relato de experiências pessoais.


Mas é na sala de Maria Martins, com esculturas como “O impossível” e “Cobra grande”, que o público vai conhecer nossa surrealista genuína.
— Os curadores franceses ficaram surpresos com a obra de Maria. Acho que ela vai recuperar seu lugar na história do surrealismo a partir desta exposição — conta Denise.

Fonte: Jornal O Globo
20/08/2001