Sonho
e fantasia à brasileira
Daniela Name

Mario
de Andrade fazia campanha contra. Dizia que esta história
de surrealismo não podia pegar bem, já que uma corrente
que fazia a apologia das manifestações do inconsciente contrariava
frontalmente os princípios racionais que devem guiar as
escolhas de um artista na execução de uma obra. No Brasil
antropofágico pós-Semana de Arte Moderna, as influências
do estilo chegaram de forma muito tênue. Não houve organização
de grupos e nem manifestos alivanhados. Por tudo isso, a
curadora Denise Mattar usou critérios mais estéticos que
históricos para nortear a escolha dos brasileiros presentes
no módulo “Surrealismo e o novo mundo”, que mostra como
o estilo saiu da Europa para influenciar a arte dos Estados
Unidos e da América Latina.
Além da sala dedicada a Maria Martins, que vivia em Nova
York quando conheceu Breton, Denise recheou o segmento dedicado
à Argentina e ao Brasil com obras de Tarsila do Amaral,
Cícero Dias, Ismael Nery, Flávio de Carvalho e Guignard,
entre outros.
— Houve uma escolha geral da curadoria por delimitar a atuação
do surrealismo até 1947, por isso não levei em consideração
as manifestações tardias que aparecem no Brasil depois disso
— explica ela. — A seleção dos artistas aconteceu por características
das obras que tangenciam o surrealismo.
Embora nenhum deles seja surrealista de carteirinha, as
aproximações soam plausíveis quando se vê “A cuca”, uma
das gratas surpresas do segmento. Pintado por Tarsila em
1924, o quadro pertence ao Museu de Grenoble, nunca foi
exposto no Brasil e mostra como a artista, assim como os
surrealistas, também se apropriava dos mitos de sua cultura.
A cuca em questão é o jacaré gigante que também foi perpetuado
na obra de Monteiro Lobato. A artista também investiga os
sonhos em “O sono” e “Lua”. Cícero Dias segue a mesma linha,
mas por um caminho bem mais tortuoso: suas aquarelas se
aproximam dos seres etéreos de Chagall, que por sua vez
comungava com a fantasia de Magritte e sua turma.
O gauche paulistano Flávio de Carvalho foi escolhido
pela atitude contestadora e performática e está presente
com uma obra — “A inferioridade de Deus”— embora a nova
edição de seu livro “A experiência n 2”, obra fundamental
do modernismo, seja uma parceria da exposição com a editora
Nau. Guignard aparece com aquarelas e colagens bastante
raras, que foram deslocadas junto com as de Jorge de Lima
para o segundo andar, onde estão as colagens dos franceses.
O atormentado Ismael Nery se aproxima dos princípios surrealistas
— e da mexicana Frida Kahlo, também na mostra — pela fragmentação
do corpo, que produz obras fantásticas e escatológicas.
— Conceitualmente, Nery não tem nada a ver com o surrealismo,
porque era católico e os surrealistas vão rejeitar a Igreja,
a família e a pátria — assinala Denise. — Frida também fazia
questão de dizer que sua obra era um relato de experiências
pessoais.
Mas é na sala de Maria Martins, com esculturas como “O impossível”
e “Cobra grande”, que o público vai conhecer nossa surrealista
genuína.
— Os curadores franceses ficaram surpresos com a obra de
Maria. Acho que ela vai recuperar seu lugar na história
do surrealismo a partir desta exposição — conta Denise.
Fonte: Jornal
O Globo
20/08/2001