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Realidades em foco
Adriana Pavlova

Walter Firmo usa foto de arquivo para falar de cultura

De um lado, 12 caçadores de imagens acostumados com o corre-corre do fotojornalismo diário. Do outro, uma dúzia de mestres na arte de contar histórias na telona. No meio, o Brasil de hoje, sua realidade e contrastes, agruras e esperanças. O resultado? O projeto Ensaios de um Brasil, parceria do GLOBO com o Centro Cultural Banco do Brasil em formato de exposição, que será aberta hoje, às 19h, no prédio histórico da Rua Primeiro de Março 66, dando continuidade a um casamento feliz iniciado em 1998.

Sob curadoria do designer Felipe Taborda e da gerente de marketing institucional do jornal, Ana Luisa Marinho, 12 fotógrafos e o mesmo número de roteiristas foram convidados a trabalhar em dupla para, com liberdade, traduzir em imagens e textos uma dúzia de temas do Brasil mais atual. A mistura de jovens escritores com fotógrafos experientes, ou mesmo nomes da velha-guarda do cinema nacional com gente habituada a documentar cenas do dia-a-dia de norte a sul do país, produziu leituras tão díspares quanto a vastidão do país.

— A parceria com o CCBB já homenageou nesses três anos diferentes segmentos da cultura brasileira, de cinema a artes plásticas, passando pelo teatro — lembra Ana Luisa. — Agora chegou a vez de homenagear o Brasil a partir de temas comuns a qualquer país, mas que são pontos nevrálgicos do nosso. Somos um país com um potencial enorme mas cheio de problemas. É esse paradoxo que serviu de base para o encontro de pessoas acostumadas a construir histórias com fotógrafos que lidam diariamente com a realidade daqui.

Enquanto algumas duplas fizeram trabalhos que têm vida própria, outras preferiram apostar na idéia de conjunto, construindo uma ligação perfeita entre texto e imagem. Escalado para ilustrar o tema política, o experiente repórter fotográfico Evandro Teixeira resgatou, de seu arquivo, uma foto das manifestações cariocas contra o assassinato do estudante Edson Luís em 1968 e a reação brutal da polícia montada. A escolha foi feita em parceria com o roteirista José Louzeiro, que assina um texto jornalístico-histórico-ilustrativo.

— Só se fala direito do presente quando se busca as raízes do passado — diz Louzeiro, que é autor de roteiros de filmes como “Pixote, a lei do mais fraco”, “Lúcio Flávio, o passageiro da agonia” e “O homem da capa preta”. — A violência a que assistimos hoje tem raízes na ditadura de 1964, por isso é sempre muito interessante evocar o passado.

Menos ilustrativa mas não menos impactante é a imagem criada pelo fotógrafo Bruno Veiga (com passagens nas redações de O GLOBO, “Jornal do Brasil” e “Veja Rio”) inspirada na questão da violência, que ganhou texto do roteirista e diretor de cinema José Jofilly. A idéia de pôr um braço no lado esquerdo da foto em preto e branco apontando uma arma para o Cristo Redentor surgiu em meio a um bando de divagações. Primeiro, segundo ele, os números da pesquisa do IBGE, divulgada recentemente, sobre distribuição de renda no país. Em seguida, o poder dos governantes sobre o povo. E os perigos a que a população está exposta numa cidade em que assaltos se transformaram em cotidiano.

— A violência se expressa através do poder — diz Veiga, que usou seu braço esquerdo na foto enquanto clicava a máquina com a mão direita. — E esse poder tanto pode ser do Fernando Henrique Cardoso sobre os desempregados quanto do meu cérebro sobre o meu pulmão, quando eu fumo. A arma de fogo é uma metáfora do poder de alguém sobre alguém. Pode ser o poder dos governantes e até o poder do ladrão, que de certa forma também é vítima do Estado.

 

Infância combina inocência e poder

A discussão sobre poder se repete na imagem criada por Leonardo Aversa, do GLOBO, para o tema infância. Um bebê segura uma arma. O texto é de Fernanda Young.

— A imagem que me ocorreu foi a de infância como combinação de inocência e poder, algo que pode ser trágico ou revolucionário. Um Timothy Mc Veigh ou um Che Guevara — explica Aversa.

Houve ainda quem preferisse ilustrar o pedido com uma experiência pessoal. Escalado para escrever sobre educação no país, Paulo Halm fez um relato sobre suas andanças de norte a sul do território nacional, durante filmagens para o Ministério da Educação. Há um tom de crítica, mas há esperança. A ilustração de Eduardo Simões é a imagem de um quadro negro velhinho repleto de assinaturas escritas com letras grandes e pequenas.

— Falo das cenas desgastantes que já vi pelo país, falo da falta de perspectiva de quem está sendo retratado nos documentários, mas mostro que, em meio a dificuldades, há esperança quando vejo crianças andando até quatro quilômetros para conseguir estudar — diz ele, que assinou roteiros como “Pequeno dicionário amoroso” e “Guerra de Canudos”.

As duplas se completam com Walter Firmo e Leopoldo Serram (cultura), Cristiano Mascaro e Doc Comparato (futuro), Ed Viggiani e Elena Soárez (comunicação), Nair Benedicto e Melanie Dimantas (povo), Rogério Reis e Jorge Durán (meio ambiente), Mirian Fichtner e Adriana Falcão (tecnologia), Carlos Humberto TDC e Marcos Bernstein (terra) e Alexandre Sant’Anna e João Emanuel Carneiro (fome). Ensaio de um Brasil dá continuidade à parceria do GLOBO com o CCBB, que começou há três anos com a mostra “O bonequinho viu”, uma homenagem aos 60 anos da imagem da crítica de cinema do jornal através de pôsteres criados por cineastas e artistas visuais. No ano seguinte, “Retratos falados” reuniu 12 personagens da literatura brasileira interpretados por escritores e artistas visuais. Em 2000, a criação de cartazes de “Cenas imaginárias” foi feita a partir da união de diretores de teatro com artistas plásticos e designers.

Fonte: Jornal O Globo