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A arte enfrenta os seus espelhos
Daniela Name

Ricardo Becker parece não estar nem aí para aquela crendice que dá sete anos de azar para quem quebra um espelho. Pelas suas contas, já acumulou uns 140 anos de desgraça, já que teve que destruir uns 20 espelhos até encontrar a forma perfeita de uma das peças que compõem a exposição “Você não está aqui”, que a galeria Laura Marsiaj Arte Contemporânea, no Jardim Botânico, inaugura esta noite.


A mostra é composta por seis obras que jogam com o conceito de não-imagem. Em sua última individual no Rio, realizada no ano passado, no Paço Imperial, o artista plástico também brincava com a noção de imagens no espaço. A série de trabalhos foi batizada de “Entre algum lugar nenhum” e tratava das múltiplas possibilidades de organização e utilização de materiais num mesmo símbolo, a barra de parênteses.
— Agora, quis purgar uma espécie de saturação de imagens — explica ele, que começou a fazer a queima de arquivo por um caminho aparentemente paradoxal, recuperando o velho vício de desenhar abismos e montanhas bastante figurativos. — Sempre gostei de desenhar, mas nunca tinha exposto meus desenhos. Na verdade, a exposição segue uma ordem lógica começando pelos desenhos figurativos e terminando nos espelhos, em que atinjo a não-imagem total.


Os desenhos de abismos são feitos pelo verso, em vidros jateados de um lado (o que recebe a ponta do lápis) e lisos do outro. Os traços das três peças encontram uma continuidade na obra com o espelho quebrado, em que Becker cria um duplo espectro. Ao se ver refletido no espelho montado numa caixa de madeira fechada por um vidro transparente, o espectador enxerga duas imagens de si mesmo: a que o espelho reflete e a refração causada pelo vidro. Ávido leitor dos ensaios de Umberto Eco sobre os espelhos, ele acredita que a obra é uma proposta de desconstrução da imagem que só se concretiza em outra peça da mostra.
— Nunca estudei muita psicanálise, mas sei que Lacan acreditava que a criança só consegue ir juntando os pedaços do próprio corpo em frente ao espelho, com alguns meses de idade — diz ele. — Com esta peça do espelho quebrado, faço justamente o contrário: despedaço a imagem, quebro o corpo, tento encontrar a cegueira impossível. E, ao mesmo tempo, crio um desenho que conversa com os trabalhos da parede em frente, sobre o abismo.


Becker também acredita que os trabalhos são um comentário sobre a própria arte, que vive à beira do abismo. E faz da discussão da imagem uma de suas questões fundamentais. Para ele, o encontro perfeito com a não-imagem se dá na quinta peça da sala principal, instalada à direita de quem entra na galeria. Duas paredes de vidro transparente ganharam uma moldura que é madeira do lado de fora e tiras de espelho do lado de dentro. Os espelhos foram posicionados de uma maneira tal que não refletem absolutamente nada, apenas eles mesmos.


No saboroso texto que fez para o catálogo, o crítico Agnaldo Farias, ex-curador do MAM e responsável pela participação brasileira na próxima Bienal de São Paulo, diz que Becker joga com a idéia de moldura, que sempre foi uma espécie de estratégia usada para separar a obra de arte “do resto das coisas do mundo”: “(A moldura é) um dispositivo eficaz na reiteração da arte como uma suspensão, um parêntese no tempo e no espaço cotidianos. Detendo-se obre este parênteses, aplicando-lhe espelhos, Becker demonstra-o como a vala na qual podem ser semeadas todas as infinitas imagens que germinariam neste reduzido quadrilátero na parede”.


Farias faz ainda uma breve história dos espelhos, lembrando que eles brincam com a efemeridade de uma imagem que desaparece assim que saímos da frente deles. O espelho não guarda nada, embora consiga duplicar tudo: “A única exceção conhecida, como nos ensinam os contos góticos, são os vampiros, unos em sua maldade”, lembra o crítico, que amanhã, às 19h, estará no Parque Lage junto com Becker, numa mesa-redonda sobre o trabalho do artista.


Na ocasião, Becker vai poder contar que a série dos abismos e espelhos já é o primeiro passo para a pesquisa de um ano que fará para o programa de artes visuais do RioArte. Ele já tem uma instalação imensa, toda feita de espelhos, e quer encontrar o lugar adequado para apresentá-la.
— Houve uma mudança no meu trabalho, mas há características que persistem, como o uso de alumínio, de materiais frios — diz ele.
Verdade. Na Laura Marsiaj, um “abismo derretido”, feito de alumínio, promete surpreender os que passarem da sala de entrada para a área íntima da galeria.

Fonte: Jornal O Globo
27/08/2001