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Efrain Almeida abre mostra enxuta em SP
Maria Hirszman

São Paulo - Efrain Almeida é um artista raro. Com as pequenas e delicadas obras que realiza, associando elementos suaves e repletos de simbologia, como a madeira e o tecido, ele faz uma leitura absolutamente contemporânea do universo cultural brasileiro. Numa época em que a pasteurização parece muitas vezes dominar o discurso plástico, que busca ampliar as fronteiras de experimentação, o trabalho de Efrain propõe resgatar, de maneira absolutamente pessoal, o substrato artístico e cultural que marca sua visão de mundo e que tem uma relação profunda com a história do País.

As obras expostas na Galeria Fortes Vilaça traduzem com perfeição o que Efrain define como uma forma de "potencializar, transcender o cotidiano por meio da arte". A montagem é extremamente enxuta e chegamos a desejar que ele tivesse aproveitado mais o espaço para expor mais peças. Mas seu objetivo era exatamente o de explorar ao máximo a relação entre os trabalhos e a parede branca, levando o espectador a concentrar-se, a deixar-se seduzir pelos trabalhos, fazendo com que a pequena escala potencializasse sua carga poética.

São apenas cinco séries (ele trabalha sempre em séries, que abandona em alguns momentos e retoma mais adiante, num diálogo constante com questões que povoam seu imaginário e sua memória). Logo na entrada da galeria, vemos duas pequenas mãos segurando passarinhos, ambos esculpidos em madeira. Há nessa obra uma ambigüidade muito presente em sua produção. Não se sabe ao certo se as mãos amparam ou retêm os pássaros.

Como sempre ocorre no trabalho de Efrain, as mãos são as do próprio artista (ele utiliza constantemente a própria imagem como ícone, como um padrão visual a ser repetido, com suas imperfeições e mudanças). E como tal, carregam as feridas decorrentes do processo de talhar. Mesmo que ele afirme que esses cortes não têm nenhum simbologia especial, eles são tão reais que provocam no espectador uma espécie de agonia, um sentimento de comiseração. O que era sedução da forma, torna-se dor compartilhada.

O mesmo ocorre com a série de trabalhos na parede oposta. Lá vemos pequenas camisas feitas em tecido transparente, cingidas por coroas de espinho em madeira. A obra remete à série Marcas, que ele já expôs no mesmo local e que fala dos amigos que viu morrer na infância. Mas em vez da leveza desse trabalho (em que os "corpinhos" eram sustentados por mãos delicadas), essa obra literalmente tira o fôlego, reflete de forma precisa a contradição provocante da obra de Efrain.

Afirmar a relação de suas obras com os ex-votos é algo que o incomoda, como uma atitude reducionista, que parece pretender limitar sua obra a um caráter folclórico. Mas isso não quer dizer que ele negue o repertório visual gravado na mente do garoto que, mesmo tendo uma formação bastante erudita e vanguardista, nasceu no sertão do Ceará, viu e conviveu com a pobreza e que desde menino aprendeu a lidar e a refletir sobre a profunda religiosidade e as tradições artesanais de seu estado natal.

Efrain Almeida. De terça a sexta, das 9 às 19 horas; sábado, das 10 às 17 horas. Galeria Fortes Vilaça. Rua Fradique Coutinho, 1.500, tel. 3032-7066. Até 8/9. Abertura amanhã às 20 horas.

Fonte: Jornal Estadão
16/08/2001