|
"Dom Quixote" terá
versão em HQ
Jotabê Medeiros
São Paulo - Vencedor do Prêmio HQ Mix de Melhor Desenhista
Internacional em 2001, o desenhista italiano Ivo Milazzo
veio a São Paulo para receber a distinção
e foi fortemente aplaudido em outubro, no Teatro São
Pedro. Sua criação Ken Parker, publicada
no Brasil pela Editora Vecchi no fim dos anos 70 e
começo dos 80, garante ao italiano um culto
eterno no Brasil.
Mas o fato é que a carreira de Milazzo não
parou em Ken Parker. Ele é um dos grandes artistas
dos quadrinhos por ter conseguido manter uma coerência
e integridade estética ao longo de toda a carreira.
Seu próximo grande projeto é uma versão
magnífica de D. Quixote, de Miguel de Cervantes,
que deverá ser publicada em seis álbuns
de 46 páginas.
Segundo informa o artista, será certamente uma
co-edição entre França, Itália
e Espanha, e deverá ser publicada em um ano.
"Minha proposta é uma interpretação
realística do D. Quixote, não um Quixote
idealizado como foi retratado nos quadros de Picasso
e Dalí", afirmou o desenhista hoje, em
entrevista por telefone, da Itália. "Quero
contar a história como ela teria acontecido
naquele tempo, caracterizada por uma situação
de muita dificuldade, de muita pobreza", disse.
Não há muitas versões do D. Quixote
para os quadrinhos. Uma das mais recentes foi a que
publicou nos Estados Unidos o desenhista americano
Will Eisner. "É uma versão que
parte do grotesco, uma revisitação cômica",
disse Milazzo. "Não que eu não
goste, mas trata-se de uma interpretação
de Eisner, e a minha proposta é diferente",
afirma.
Envolvido numa pesquisa de época, ele viu uma
das raras versões cinematográficas do
clássico, D. Quichotte, dirigida por Georg
Wilhelm Pabst em 1933, com Feodor Chaliapin Sr. como
Don Quichotte e Renee Valliers como Dulcinea.
"Descobri também recentemente que o ator
espanhol Fernando Rey protagonizou uma versão
para a TV, mas não vi esse filme", contou
Milazzo. O filme ao qual ele se referiu era El Quijote
de Miguel de Cervantes, dirigido por Manuel Gutiérrez
Aragón em 1991. Os diálogos desse telefilme
foram escritos por Camilo José Cela.
Para buscar mais elementos para o seu Don Chisciotte
Milazzo quer ir à Espanha (com o argumentista
do livro, Jorge Zentner, argentino radicado em Barcelona),
em maio, para empreender uma peregrinação
pelos lugares descritos por Cervantes, na Mancha,
tentando reconstituir com o máximo de eficácia
possível um cenário de época.
O trabalho de artesão dos quadrinhos de Milazzo
pode ser conferido na reedição de Ken
Parker, que está nas livrarias e comic shops
no seu número 8, relançado pela editora
Tendência Editorial (R$ 15,00 o exemplar). E
Milazzo também retorna com um lançamento
excepcional: Marvin (que acaba de sair no Brasil pela
Coleção Opera Mundi, da editora Opera
Graphica).
"O álbum Marvin foi lançado em meados
dos anos 80", ele lembra. "Foi uma espécie
de jogo inventado por Berardi (Giancarlo Berardi,
roteirista de comics e parceiro de Milazzo no Ken
Parker) para fazer a passagem de um personagem a outro."
É fato: no início de Marvin, uma história
detetivesca passada em Hollywood, há um pequeno
filme mudo exibido como introdução cujo
personagem é um caubói muito conhecido,
Parker.
A única aventura do detetive Marvin é
essa que está nas bancas brasileiras. O Caso
de Marion Colman mistura a tradição
do filme noir, de David Goodis e Raymond Chandler,
com um pouco da atmosfera típica do jazz que
Milazzo tanto estima.
Ele enche de referências cult sua história
de pequenas traições e miséria
humana. A história se passa em 1928, na mesma
época da estréia do desenho animado
Steamboat Willie, que lançou um rato para o
estrelato: Mickey Mouse. O King´s Club, numa
determinada noite, tem como atrações
Louis Armstrong and Orchestra, no espetáculo
You´ll Want to Dance.
Seu personagem não se furta a comentar certas
performances incidentais. Numa visita profissional
ao King´s, ele chega num momento em que a orquestra
de Jelly Roll Morton faz um show de "jazz-stomp-swing".
Ouve por alguns momentos e diz: "Grande músico,
esse Morton. Tem algo de Joplin, mas é o único
que toca piano como se cada tecla fosse um instrumento
diferente." Em qual gibi você tem visto
algo assim?
Na França - Magnífica homenagem aos símbolos
de uma época de ouro - na contracapa, Milazzo
põe seu detetive preguiçosamente sentado
na cadeira de Erich von Stroheim -, Marvin não
teve seqüência. "Chegamos a pensar
num segundo número, mas não deu certo",
conta o artista.
As primeiras páginas de Don Chisciotte têm
texto em francês, o que denuncia também
a intenção de Milazzo de lançar
seu álbum no maior mercado de quadrinhos da
atualidade na Europa. "Como você sabe,
o mercado se move nessa direção, da
França", ele conta. "Mas há
uma certa prepotência editorial, reforçada
pelo conhecimento de sua própria força,
e que cuida de conseguir os direitos para todo o mundo
de uma publicação."
Milazzo tem outros planos. Ele adiantou que deverá
lançar seu Don Chisciotte também em
português, no fim do ano que vem, pela Devir
Comics. A casa editora e importadora de São
Paulo está entrando no mercado português
e espanhol e o seu publisher, Douglas Quintas Reis,
esteve reunido com Milazzo em São Paulo para
tratar da publicação.
Fonte: Jornal Estadão
05/12/2001
|