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MAM expõe Di Cavalcanti e Tarsila

Maria Hirszman

Mostra traz mais de 110 obras assinadas por dois grandes mestres do modernismo brasileiro: Tarsila do Amaral (1886-1973) e Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976)

São Paulo - O Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo inaugura amanhã à noite uma exposição de encher os olhos, que reúne num mesmo espaço mais de 110 obras assinadas por dois grandes mestres do modernismo brasileiro: Tarsila do Amaral (1886-1973) e Emiliano Di Cavalcanti (1897- 1976).

Os desenhos e pinturas realizados principalmente nas décadas de 20 e 30 - mas com alguns exemplos dos anos 40, raramente exibidos, principalmente no caso da pintora - traçam um panorama da obra dos dois pintores que podem ser considerados a alma visual do modernismo brasileiro e poderiam já ser atrativo suficiente para levar um grande público ao museu do Parque do Ibirapuera. Quase 11 mil estudantes já agendaram visitas monitoradas ao evento, praticamente esgotando as vagas reservadas pelo serviço educativo para grupos.

Mas, aproveitando o ensejo criado pela missão de realizar uma mostra que lembrasse a Semana de Arte Moderna, ocorrida há exatamente 80 anos, a curadora Maria Alice Milliet resolveu propor uma espécie de leitura mais aprofundada da poética dos dois pintores, mostrando como eles, por caminhos diferentes, trouxeram para dentro de suas telas o povo brasileiro. E vai mais além, afirmando que essa política de inclusão, de uso da arte como forma de busca da identidade nacional, está novamente ganhando fôlego, após "termos passado anos olhando para o próprio umbigo", explica. "Trata-se de uma visão socializante do problema, uma idéia de arte não só como forma expressão cultural, mas algo também ligado a questões econômicas e sociais."

Evidentemente, o grande nome quando se trata de uma visão social e política da arte seria Portinari, mas ele não tem ligações com o movimento modernista. Já Di e Tarsila estão intimamente ligados ao movimento, cada qual à sua maneira. Di literalmente é apontado como o ideólogo do evento. Tarsila nem estava no País quando a Semana ocorreu, mas sua obra praticamente perpetua o ideal expresso por Oswald e Mário de Andrade.

É interessante notar que duas pessoas que aparentemente pertencem a universos opostos realizam o mesmo processo de incorporação do universo popular em suas telas. Di, um boêmio carioca, o faz por meio da "vivência direta, visceral", sem recorrer ao filtro do discurso intelectual. Já a rica e sofisticada Tarsila, que tinha 36 anos em 22 e vivia confortavelmente sustentada pela família em Paris, redescobre em suas memórias os elementos que a levariam a incorporar as teorias modernistas aprendidas na Europa a uma explosão de elementos tipicamente brasileiros, que povoavam seu imaginário desde a infância.

"Nesse período, a arte negra, o jazz estão entrando com toda força na Europa, e eles se dão conta de que nós já temos toda essa riqueza aqui, de que não é necessário ir ao Haiti para encontrar isso", observa Maria Alice.

A montagem da exposição, idealizada por Mario Gallo, cria momentos separados para cada um dos artistas, mas também estabelece encontros entre os dois, como por exemplo no corredor criado para abrigar os desenhos. Realmente não seria possível estabelecer um diálogo permanente entre os dois pintores, com suas trajetórias tão diferentes. Mas também é inevitável estabelecer certos contrapontos interessantes, como por exemplo a profunda conexão existente entre as pinturas de cunho social de Tarsila, como 2.ª Classe, de 1933, e algumas obras mais engajadas de Di, como o desenho em que retrata um grupo de trabalhadores, feito na mesma data.

Mas, segundo a curadora, o grande momento de encontro entre essas duas poéticas se dá no campo da representação feminina. Enquanto Tarsila cria a figura mítica, quase totêmica, da mãe preta em A Negra (representada na mostra por obras semelhantes) ou em Maternidade, Di a retrata como a mulata de belas curvas e olhar distante. Que não se oferece, mas está permanentemente disponível. Duas visões sentimentais e afetivas sobre o Brasil. Afinal, a grande mãe - que depois se funde com a idéia de Nossa Senhora - de Tarsila ou a amante de Di Cavalcanti nascem do desejo de retratar a condição, o jeito brasileiro.

Nova fase - A exposição de Tarsila e Di Cavalcanti marca o início de uma nova fase do MAM-SP, sendo a primeira exposição realizada depois que foi adotado o sistema de curadoria coletiva sob a responsabilidade de Maria Alice Milliet, Tadeu Chiarelli e Felipe Chaimovich. Esse sistema permite uma grande diversidade de temas e enfoques e facilita o desenvolvimento de uma programação de longo prazo para a instituição.

Já estão definidas, por exemplo, as linhas gerais do cronograma de eventos para os anos de 2003 e 2004, que inclui por exemplo a realização de uma exposição dedicada a Anita Malfatti, com curadoria de Chiarelli, em maio de 2004, e outra dedicada a São Paulo, em outubro do mesmo ano - sob a responsabilidade de Maria Alice e Chaimovich.

Para iniciar o próximo ano, Chaimovich está preparando uma exposição sobre a década de 80. Outra novidade de peso, que promete ser polêmica, já que repete o modelo seguido pela Bienal de convidar um curador estrangeiro para comandar um evento de grande importância no cenário nacional, é a decisão do trio de convidar Catherine David, curadora da 10.ª Documenta de Kassel, para realizar o Panorama de Artes do MAM, programado para setembro de 2003.

Serviço - Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti: Mito e Realidade no Modernismo Brasileiro. Terça, quarta e sexta, das 12 às 18 horas; quinta, das 12 às 22 horas; sábado, domingo e feriado, das 10 às 18 horas. MAM. Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n.º, Parque do Ibirapuera, portão 3, São Paulo tel. (0xx11) 5549-9688. Até 15/11. Abertura amanhã, às 19h30.

Fonte: Jornal Estadão
24/10/2002