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Daniel Feingold e Raul Mourão expõem em SP
Camila Molina

São Paulo - O Gabinete de Arte Raquel Arnaud inaugura amanhã duas mostras individuais - uma de pinturas de Daniel Feingold, a terceira realizada na galeria pelo artista que vive há oito anos em Nova York; e outra intitulada Portátil, uma mistura de trabalhos feitos em diversas mídias pelo carioca Raul Mourão. Esta é a primeira vez que ele faz uma individual em São Paulo.

As telas que Daniel Feingold exibe no gabinete são composições formadas por, basicamente, linhas que tomam diversas direções: são convergentes ou divergentes e vão se entrecortando no plano que agora toma maiores dimensões - as junções de telas formam painéis de 2,20 m x 3,40 m, por exemplo. Além do traço, pode-se dizer que o elemento novo é o uso do esmalte sintético, tinta industrial "que tem muito a ver com a vida fora do Brasil", diz o artista. "As colunas do metrô são pintadas com o esmalte sintético", complementa.

Como ele mesmo define, suas telas são "uma abstração bidimensional formada pela sobreposição de uma malha de linhas que vai se complicando." Ou ainda, um "estilhaço" - "uma construção negativa, gestual, expressiva e estilhaçada", para completar com a opinião de Paulo Venâncio Filho no texto do catálogo da exposição.

Além das linhas, agora surgem novas cores como o vermelho, o amarelo e o azul. O prata, preto e o branco já vieram do começo desse trabalho do artista, que tem o aspecto parecido desde 1999.

Entretanto, para contar o trajeto de sua pesquisa, Feingold volta ao que produzia em 1996, "quando a questão da linha era mais orgânica, feita com interioridade e tinta a óleo". Trabalhos mais leves, eram linhas pintadas sobre papel de arroz que flutuavam no espaço, presos pelas pontas.

Depois, em 1998, começou a fazer composições com fitas corretivas em várias cores em papel do tamanho de folhas sulfite. As linhas começaram a se convergir, divergir, tomaram "rastros multidirecionais" e, desse modo, Feingold descobriu a base do trabalho que faz até hoje. "Queria expandir o traço e foi assim que cheguei ao esmalte sintético, que é viscoso e seca rapidamente", explica. E, assim, as linhas tomam o aspecto de uma "grade" - "A América é uma grade. Suas cidades não são orgânicas, são geométricas. Tudo tem a mesma cara".

Liberdade - Já Raul Mourão gosta de frisar que trabalhar com diversas mídias faz parte de sua natureza. "Sou livre para experimentar qualquer meio, diz. Em Portátil, o artista mostra seis trabalhos feitos entre 1998 e este ano. Escultura, videoarte e objetos são o que Mourão apresenta no Gabinete de Arte Raquel Arnaud.

A primeira obra instalada é a maquete do trabalho A Grande Área, criado no ano passado para a 3.ª Bienal do Mercosul e que era uma estrutura de ferro que tomava a forma da grande área do Maracanã. Agora, para a exposição, Mourão apresenta a maquete da obra, "25 vezes menor", objeto que ele mesmo considera uma escultura. Na mesma sala, ainda o díptico Vermelho e Amarelo e a escultura Banco, feita em ferro maciço e madeira.

Em outro espaço, há a obra Surdo-Mudo, criada em 1999 para uma exposição no Rio que homenageia músicos. Trabalho encomendado, a escultura é formada por um granito em cima de um instrumento de percussão. "O Surdo-Mudo foi feito em homenagem à música Vai Passar, do Chico Buarque", conta Mourão. No mesmo espaço, o artista mostra uma das esculturas da série Grades, que trata da questão urbana.

Mourão, para realizar essa série, observa, fotografa, desenha estruturas urbanas e as reproduz em esculturas formadas por linhas de ferro. Especialmente para esta individual, a obra traz a estrutura de um tronco de árvore. Vale dizer que o artista ganhou a Bolsa RioArte por causa dessa pesquisa.

E, por fim, a exposição se completa com o videoobjeto feito em 1995. Nesse trabalho, Mourão pendurou os artistas Mário Ramiro, Lúcia Koch e Nélson Rosa com equipamento de alpinismo e os deixou expostos por uma hora. Mourão fez a filmagem com os três juntos, mas nesta mostra, ele expõe somente a performance com Mário Ramiro. "Esse trabalho é um trocadilho visual. Como se a personalidade fosse maior que a sua produção", explica o artista.

Daniel Feingold e Raul Mourão. De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das 11 às 14 horas. Gabinete de Arte Raquel Arnaud, em São Paulo. Rua Artur de Azevedo, 401, tel. (11) 3083-6322. Abertura às 20 horas. Até 8/6.

Fonte: Jornal Estadão
08/05/2002