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Diálogo estimulante de dois pintores da cor
Wilson Coutinho

Pintura de Claude Viallat

O pintor francês Claude Viallat e o brasileiro Luiz Aquila estão unidos nas mostras em cartaz atualmente no Paço Imperial por uma boa causa: como abordar a cor? Para muitos, no meio de arte, os dois deveriam estar colorindo os figurinos de mais um filme sobre dinossauros. Para muitos espectadores, porém, a vibração da cor na tela é ainda algo misterioso e que encanta. Para estes últimos, as exposições no Paço são oportunas. Os dois pintores continuam achando que a tela não é uma caverna pré-histórica.

O francês surgiu, nas décadas de 60 e 70, como um dos nomes importantes do movimento Supports/Surfaces que, ano passado, foi motivo de excelente exposição no Centro Cultural Banco do Brasil. A idéia, um pouco marxista como convinha na França daquela época, era mostrar, como se dizia então, a materialidade da obra, restrita à sua superfície e ao suporte.

A idéia mais duradoura — hoje banal em exposições — ficou sendo a tela liberta do chassis, solta na parede. Viallat, que exibe trabalhos dos anos 70 até hoje, foi um artista que pensava a cor seguindo a trilha de seu mais conhecido patrício nesse campo, Henri Matisse. As superfícies soltas, que a aragem, ao entrar pelas janelas do Paço, faz balançar, estão em exibição, assim como o ritmo de uma forma padronizada, lembrando um molar, que se repete sobre tecidos tingidos, podendo ser um lençol ou um toldo de feira. O colorismo é delicado como se Viallat desejasse reter apenas uma leve película da cor.

Aquila, que nos anos 70, em Brasília e depois, como professor do Parque Lage, parecia congelado num fotograma do filme “Parque dos dinossauros”, hoje, na maturidade, é dono de um estilo inconfundível, além de ser o padrinho de uma geração, a dos anos 80, que resolveu enfrentar, com sucesso, as questões da pintura.

Bem diferente de Viallat, Aquila aceita o chassis e seu estilo parece uma explosão de vermelhos, azuis, rosas, amarelos e laranjas. A tela parece trabalhada num ponto, geralmente uma mancha, e se estilhaça, depois, em formas pontiagudas, que descentralizam aquele foco, evocando a idéia de uma cor que é, subitamente, detonada. Um dos seus mais recentes trabalhos — desenhos serigráficos — revela a tensão do artista entre a mancha e o gesto, e o conjunto é muito bonito. A série, com 18 peças, modifica-se ligeiramente, alterada a matriz com o colorido que o artista aplica em cada uma delas.

Aquila também está expondo pinturas na galeria Anita Schwartz, na Barra. No Paço, o diálogo entre Viallat e ele é estimulante. Depois, o espectador tem a chance de admirar o tom baixo, terroso, uma outra idéia de pintura nas imagens figurativas de Mario Carneiro, exibidas no mesmo local.


Fonte: Jornal O Globo