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Picasso precisa combinar com sofá?
Mírian Pinheiro
A grosso modo, o mercado de arte caminha para onde
está o dinheiro. Esse é o mandamento de quem vive
numa economia estagnada, onde é cada vez mais difícil
vender, principalmente mercadoria cara, como é o caso da
obra de arte. Mas, se a figura do colecionador é cada vez
mais rara, em contrapartida, cresce o número de pessoas interessadas
em ter em casa um trabalho assinado por um artista. É exatamente
a volta para dentro de casa, imposta pela violência urbana,
que tem incrementado o mercado de arte no País. As pessoas
estão interessadas em casas bonitas e acolhedoras. Por isso,
hoje, o decorador responde pelo maior percentual de vendas das galerias.
Normalmente, ele é quem sai à caça das peças
que irão transformar o espaço privado no ambiente
desejado. Daí, a sua presença cada vez mais freqüente
dentro das galerias de arte.

Valorização - A crítica maior é que
obra de arte, como a Demolição IV, da série
Resíduos, de Mariza Trancoso não tem compromisso com
as regras impostas pela decoração
Mas nem tudo são flores nessa relação de compra
e venda. O que os donos de galeria têm percebido é
que há um certo desconhecimento por parte dos decoradores
sobre o emprego da arte na decoração. Para Beatriz
Lemos de Sá, dona da galeria de arte que leva o seu nome,
a obra de arte não tem o compromisso de combinar com nada.
“Mas existe, sim, uma demanda pelo serviço do decorador
nesta área. E muitas pessoas deixam a cargo dele essa escolha.
Infelizmente, nem todos têm uma cultura artística para
indicar a melhor opção”, critica. O que no meio
tem sido comum, ela diz, é se eleger nomes (como se fosse
receita de bolo) e só comprar trabalhos desses artistas.
Para ela, há pretensos artistas que se dedicam a fazer trabalhos
para agradar exatamente a esse público, apesar de acreditar
que são adornos o que produzem, não arte. “Artista
com ‘a’ maiúsculo ninguém dá o
tom para ele”, diz a marchande, cuja venda maior ainda é
para colecionador.
Informação
Na opinião de Beatriz Abi-Acl, dona da Agnus Dei, o decorador
tem uma importância singular neste mercado. “É
a ele que as pessoas de fora recorrem quando chegam a BH, sem conhecer
direito as galerias de arte da cidade”, afirma. Mais positiva,
ela acredita que os decoradores já estão buscando
entender mais o mercado de arte, a obra, o artista. Mas é
preciso fazer mais para que histórias que ela classifica
como “verdadeiros crimes” não aconteçam
sempre. “Recentemente, tive um casal de clientes apaixonados
por uma obra de Mariza Trancoso. No entanto, eles não puderam
ficar com o quadro porque sobravam 20 cm de parede. O decorador
deles não permitiu”, conta, ao criticar a conduta do
profissional que age assim - um tipo de interferência que
vê com profunda tristeza.
Para ela, antes de qualquer coisa, os decoradores precisam avaliar
a honestidade do trabalho do artista, embora admita que eles também
não têm culpa de o artista optar por fazer uma obra
somente com a intenção de decorar. Sua parte, a de
marchande, Beatriz faz privilegiando artistas mineiros de qualidade.
“Faço cinco exposições por ano, quatro
são de artistas daqui e apenas um de fora”, diz. Já
para Celma Albuquerque, dona da galeria que leva seu nome, o decorador
para prestar uma boa assessoria, deveria estar bem informado. “Por
quase quatro anos mantive um curso de história de arte na
galeria, nenhum decorador matriculou-se”, afirma, sem entender
o porquê de o profissional não conversar mais com os
marchands, uma vez que o seu cliente precisa ser bem informado para
comprar melhor.
João Carlos Lopes dos Santos – consultor de mercado
de arte e perito judicial na área de mercado de arte há
20 anos no Rio de Janeiro -, diz que é preciso paciência.
“O mercado de arte organizado do País tem um pouco
mais de 40 anos e ainda está se desenvolvendo, ávido
por encontrar uma economia brasileira saudável”. Na
sua visão, Belo Horizonte está em pé de igualdade
com o mercado do Rio de Janeiro e São Paulo e o seu viés
é de alta. Porém, discorda de o decorador, no cenário
nacional, ser o principal consumidor de arte. Na sua visão,
os quadros de coleção têm tido uma procura jamais
vista no mercado de arte brasileiro. “Quem tem um quadro raro,
seja de um artista importante no cenário nacional –
ou internacional -, sem dúvida, sabe que tem dinheiro em
caixa e absoluta liquidez. Mas não vê problemas no
fato de o grande consumidor não ser colecionador.

Visitas orientadas - Presidente da Associação Mineira
de Decoradores, Maria Ignez Coutinho propõe à classe
tours educativos
“Aliás, é bom que se diga, todas as grandes
coleções de arte do País começaram com
a intenção de decorar as paredes e, quase sempre,
com a aquisição de obras de arte dos artistas novos
da época”, afirma. Também neste setor, dos artistas
novos, Minas Gerais apresenta excelentes nomes”, elogia.
“Arte” perigosa
O consultor João Carlos Lopes dos Santos diz que, enquanto
intermediador da compra, muitas vezes até fazendo a escolha
no lugar do cliente, o decorador deve estar atento ao meio que atua.
“Há de tudo: autocopista, cover, importador de criatividade,
falso artista plástico, enganador, impostor, retroprojetista,
industriário e falsificador”. Aos desvios de conduta
do segmento chama antiartes, que nada mais são do que a cópia,
o plágio, o embuste, a falsificação e todos
os tipos de mentira na criação artística. A
isso também faz questão de dizer que sempre se opõe,
“a 180 graus”, de todos os argumentos que pretendam
justificar qualquer tipo de antiarte.
Para ele, o inimigo número um das artes plásticas
é o mau profissional, seja qual for a sua atividade no mercado
de arte - artista, consultor, vendedor. Mas essas práticas,
ele diz, não são mazelas contemporâneas, exclusivas
do mercado de arte brasileiro. São universais - e existem
em todas as atividades humanas desde os primórdios da civilização.
Para Marco Elizio, professor de crítica de arte da Escola
de Belas Artes da UFMG, o decorador, até pelo volume de negócios
que movimenta nas galerias, deveria preservar mais as artes, se
informar melhor, colaborar para educar o grande público.
“Ainda acontece muito de ele atender o gosto do cliente, e
acabar ‘empurrando’ obras mais conservadoras”,
lamenta, ao afirmar que, quem quer decorar uma casa, quer parecer
“moderno”, ainda que, para isso, esteja elevando ao
limbo o que ele chama de cultura neogeo - mais minimalista, mais
deglutível. “Chamo isso de modernoso, mistura de moderno
e horroroso, cópia de revistas, salões de Milão”,
critica, ao reconhecer o mesmo fenômeno na moda. Para ele,
o decorador pode convencer com a dignidade do seu trabalho.
O que Marco Elizio mais teme é a uniformização,
“são casas que mais se parecem vitrines fotografadas
para revistas”. Ele defende a idéia de o decorador
ser uma espécie de conselheiro de investimento. “Do
mesmo modo que um sofá de R$ 5 mil pode ser jogado fora daqui
a alguns anos, o neogeo também perderá liquidez. Ao
contrário de uma obra de arte, que tem valor eterno”,
avalia, ao acrescentar que colocar arte dentro de casa é
uma questão de sabedoria e informação, não
de moda. Ele acredita que o decorador pode transformar o seu cliente
em colecionador - uma atividade humana de preservação
da memória, diferente de um mero consumidor.
De acordo com a presidente da Associacão Mineira de Decoradores
de Nível Superior (Amide), Maria Ignez Coutinho, ainda há
muitos profissionais que não conhecem - como deveriam - o
mercado de arte. “Essa prática de comprar o que combina
com o ambiente, infelizmente é comum”, revela a decoradora.
Na sua opinião, o cliente reforça o erro, na medida
em que confia no profissional que contrata, acatando suas decisões,
e ao subestimar o poder de uma obra de qualidade. “O cliente
gasta uma fortuna com um móvel, mas na hora de comprar um
quadro não quer gastar”, afirma Maria Ignez.
Para tentar mudar essa cultura, ela conta que a Amide tem promovido
visitas orientadas a galerias de arte, com o intuito de aproximar
o decorador do marchand, de uma maneira mais informal. A última
visita aconteceu na galeria Agnus Dei. Segundo Maria Ignez, 35 profissionais
participaram. Um número pouco expressivo, se comparado com
os 700 profissionais cadastrados na entidade. Mas a saída,
ela acredita, está mesmo na promoção de eventos
- o que inclui visitas aos ateliês dos artistas - que favoreçam
o maior conhecimento do decorador. “Aos poucos, a classe vai
se conscientizar de que obra de arte, além de valorizar a
decoração, ser a chave de ouro, é investimento.
E o decorador que sabe disso está à frente dos outros”,
enfatiza, ao chamar atenção para a necessidade de
fazer com que reconheçam melhor o trabalho dos artistas mineiros.
Lei garante
Segundo a assessoria de comunicação da Secretaria
Municipal de Cultura, a Lei Municipal 5.893, de 5 de maio de 1991,
obriga a colocação de obra de arte em prédios
com área bruta maior de 2 mil metros quadrados. Os artistas
plásticos que querem ter obras exibidas nos halls devem se
cadastrar nas Secretarias de Cultura e Fazenda de Belo Horizonte.
Fonte: Feminino e Masculino - Estado de Minas
01/09/2003
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