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Chico defende com humor a prisão domiciliar
Gustavo Baena

Certa vez, o cartunista Miguel Paiva comentou com o amigo Chico
Caruso que seria possível imaginar “emergentes” estampados em revistas
de ricos e famosos, mostrando como decorariam suas celas. Só com
os escândalos recentes do cenário nacional (e até internacional)
e a colaboração de Caruso, páginas e mais páginas estariam garantidas.
A idéia deu frutos. O chargista — cujos trabalhos são publicados
desde 1984 no GLOBO —- traçou algumas possibilidades de interiores,
com paredes e objetos listrados em preto e branco, que ganharam
forma na instalação Prisão Domiciliar, um dos eventos paralelos
à 28 edição do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, aberta
sábado, na cidade que fica a 164 quilômetros da capital paulista.
— É como se estivéssemos dentro do desenho de humor, que sai do
papel e ocupa espaços maiores — explica Caruso. — O ex-ministro
Antônio Rogério Magri dizia que o cachorro é um ser humano como
outro qualquer e o cartunista Millôr diz que lugar de mulher é na
cozinha. Digo que a prisão domiciliar também é uma possibilidade
no horizonte da vida pública brasileira.
Para Caruso, estrelas dos noticiários como o juiz Lalau (Nicolau
dos Santos Neto) e o ex-presidente argentino Carlos Menem se adequam
ao novo perfil dos presidiários e sugerem um estilo de vida inusitado,
ao deixarem a cadeia e fazer de suas casas as próprias celas. “Posso
dizer que estou entrando no ramo da decoração de interiores. Seria
fantástico que adotassem minhas idéias, pois resolveria o problema
do sistema penitenciário brasileiro”, brinca.
Passeando pelos cômodos da Casa do Povoador, prédio histórico onde
estão expostos os trabalhos do conceituado chargista — o visitante
pode, além de contemplar desenhos de Menem, Lalau, do ex-deputado
federal Sérgio Naya e do senador cassado Luiz Estevão, ter o privilégio
de sentar-se ao lado de cada um deles. Réplicas em tamanho natural
foram criadas por Caruso e pelo bonequeiro carioca Eduardo Andrade,
com roupas confeccionadas por Seu Elias, um simples e ilustre cidadão
piracicabano. Seu Elias idealizou, vestiu e cuida de bonecos que
representam pescadores às margens do Rio Piracicaba, hoje sem vida.
— Em vez de fazer as listras das roupas dos meus bonecos na horizontal,
ele as traçou na vertical. Parece que todos estão num campo de concentração,
mas tudo bem — diverte-se Caruso.
Apesar de acionar seu senso de humor para uma direção crítica, o
chargista considera a prisão domiciliar uma das poucas instituições
confiáveis do país.
— Não sou contra. É uma demonstração de força, pois restringe a
ação dos caras, de Pinochet a Menem, isolando-os da sociedade. Não
deu para colocá-los na cadeia, mas dá para tornar a vida deles meio
insuportável. Vivemos uma nova realidade política brasileira, com
a independência dos procuradores e a falta de decoro parlamentar,
que proporcionam uma linha meio presidiária de humor — afirma
Além dos novos presidiários, Caruso estampa nas paredes da Casa
do Povoador outras charges que publicou —- só no GLOBO, já são cerca
de cinco mil —- em 33 anos dedicados à arte do desenho de humor.
As escolhidas, em sua maioria, têm um contexto político e ilustram
nomes como os ex-prefeitos paulistanos Paulo Maluf e Celso Pitta,
o presidente Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente do Senado
Antônio Carlos Magalhães e seu desafeto, o presidente licenciado
do Senado, Jader Barbalho, e temas como o apagão.
Fonte: Jornal O Globo
27/08/2001
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