|
Cinco séculos de arte russa chegam a São
Paulo
Maria Hirszman
São Paulo - Já está praticamente pronta,
na Oca do Parque do Ibirapuera, aquela que promete ser uma das mais
importantes exposições do ano na cidade. 500 Anos
de Arte Russa - Dos Ícones à Arte Contemporânea
reúne duas condições essenciais para que uma
exposição seja bem-sucedida: obras de qualidade e
pertinência histórica e social. São apenas 350
obras, pertencentes a uma única instituição
- o Museu Estatal Russo -, mas que contam fragmentos de uma fascinante
história: a trajetória artística russa desde
a arte religiosa dos ícones da igreja ortodoxa, relacionada
à cultura bizantina, mas com uma forte característica
local, até uma pequena seleção de obras contemporâneas.
No meio do percurso há dois momentos importantes. O primeiro
deles é o núcleo dedicado à produção
de vanguarda, que reúne obras de mestres consagrados da arte
mundial como Chagall, Kandinski e Malevich. O segundo, bem mais
polêmico, é dedicado ao realismo socialista, ao uso
da arte pela máquina do Estado soviético, e que segundo
Nelson Aguilar, um dos curadores da exposição pelo
lado brasileiro - também assinam a curadoria o francês
Jean-Claude Marcadé e os russos Eugenia Petrova e Joseph
Kiblitsky - jamais foi mostrada com tamanha força fora de
países próximos à Rússia. "Ele
só foi mostrado na Suécia, Polônia e Alemanha",
conta Aguilar. Até mesmo na União Soviética,
esses gigantescos painéis, produzidos coletivamente e que
chegam a ter seis metros de comprimento, voltaram aos porões
dos museus após a morte de Stalin e só na década
de 80 foram retirados, para serem exibidos na Documenta de Kassel.
Segundo Aguilar, o ineditismo de um núcleo como esse não
se deve a razões políticas, mas à "preguiça
curatorial".
Seguindo uma espécie de ordem às avessas, a mostra
começa no topo da Oca, com os ícones religiosos mais
próximos do céu. São cerca de 80 obras muito
frágeis que revelam muito das crenças e do espírito
russo. Segundo a chefe do departamento de arte antiga no Museu Estatal
Russo (onde estão reunidos mais de 6 mil ícones, depositados
aí depois da Revolução), a peça mais
antiga da mostra é da década de 40 do século
15. Várias peças representam a escola da cidade de
Novgorod (literalmente Cidade Nova), marcada pelo uso de cores fortes
e por um desenho bastante estilizado, construtivo.
Conservação - É interessante notar nesta seleção
o cuidadoso trabalho de preservação realizado pelo
museu, que possui um ateliê especializado em obras do gênero.
Há, por exemplo, uma peça em que é possível
observar dois momentos distintos: na metade esquerda vemos uma pintura
do século 17 (descoberta abaixo de várias camadas
de pintura) e do lado direito a mesma cena de Jesus Cristo pintada
nos oitocentos. Numa simpática delicadeza, os curadores russos
decidiram trazer as figuras de São Pedro e São Paulo,
que simbolizam respectivamente São Petersburgo (onde se localiza
o Museu Estatal) e a cidade que hospeda a atual mostra. Santos sudários,
objetos, portas decoradas, esculturas mortuárias de bispos
que seriam santificados... Há um vasto leque de opções
para divertir os admiradores da arte sacra antiga.
Mas o significado desse acervo vai além da mera curiosidade
acerca do passado mais remoto da arte russa. Aí estão
indicativos do que o visitante encontrará descendo as rampas
do prédio desenhado por Oscar Niemeyer. Como diz a curadora
Irina Solovieva, há um espírito russo que se impõe
mesmo no período soviético, relacionado com uma certa
preocupação metafísica, espiritual. "A
arte russa é muito aberta, absorve muitas influências,
mas é muito personalizada", diz.
Vanguarda - No núcleo dos ícones é Bizâncio,
no das vanguardas a influência hegemônica é indiscutivelmente
Paris. Mas é curioso notar como aqui e ali ecoam os mesmos
símbolos, o mesmo clima onírico e não apenas
nas obras enquadradas na escola do simbolismo (infelizmente a pintura
anterior ao fim do século 19 não está representada).
É o caso, por exemplo, das lendárias figuras que
surgem em duas pequenas pinturas de Kandinski, que parecem ter saídas
da mesma origem que os ícones anônimos do andar superior.
Neste capítulo as atrações são muitas,
até porque é o segmento que reúne as obras
mais conhecidas do grande público. O artista mais bem representado
é Malevich, e há uma pequena mas interessante seleção
de pinturas de Chagall - presente inclusive por meio da remontagem
do quarto do pintor, em sua cidade natal. Há também
uma seleção impressionante de trabalhos de Pavel Filonov,
genial artista russo, ligado ao movimento futurista, e quase desconhecido
no Brasil. Ele está presente com 12 obras bastante significativas.
Também é importante mencionar as belas pinturas da
escola de São Petersburgo, como o irônico retrato de
uma rechonchuda senhora que representa de maneira paradigmática
e divertida a elite ociosa. Outro artista pouco conhecido e que
merece atenção do público é Rerich.
As obras do pintor, que imigrou para o Nepal, fazem parte da exposição
permanente do museu russo, como um fascinante guache que retrata
uma batalha medieval entre tártaros e monges. Mais uma vez
nos vemos diante do misterioso caráter oriental presente
na arte russa. Vizinho de Rerich está Dobujinski, considerado
o melhor ilustrador de Dostoievski.
O peso da escultura é bem menor ao longo da exposição
- que também reúne um grande número de trabalhos
gráficos, alguns exemplos de arte popular que incluem até
simpáticas marionetes e criações ligadas ao
teatro e à dança.
Além das imagens laudátorias dos líderes soviéticos
ou do proletariado - como a réplica de uma gigantesca escultura
de dois jovens portando a foice e o martelo que estão no
centro de Moscou -, há no entanto uma peça que Aguilar
considera fundamental na história da arte moderna e um dos
pontos altos da exposição. Trata-se do contra-relevo
de Tatlin. "É difícil os escultores contemporâneos
chegarem perto daquela tensão. Foi a primeira vez que uma
escultura ocupou um canto de parede como esse", explica.
Perto desse peso histórico da arte antiga e das vanguardas,
da produção popular e do uso da arte como arma política,
quem sai perdendo é a produção contemporânea.
Com uma ou outra exceção, como a instalação
ao mesmo tempo bem-humorada e triste, em que vemos um homem de costas,
esmagado contra a porta de um metrô, essa produção
não traz grandes novidades, ficando bem aquém da representação
de Moscou na 25.ª Bienal de São Paulo, uma das mais
interessantes da mostra que se encerrou ontem por revelar a preocupação
e a coragem da classe artística de refletir sobre os principais
problemas de sua sociedade: a violência, o empobrecimento
em conseqüência da enorme degradação social
promovida pela entrada do capitalismo e a falta de perspectivas.
500 Anos de Arte Russa - Dos Ícones à Arte Contemporânea.
De terça a sexta, das 9 às 21 horas; sábado
e domingo, das 10 às 21 horas. Oca. Avenida Pedro Álvares
Cabral, s/n.º, tel. 5573-6073. Abre 9/6, às 19 horas.
Fonte: Jornal Estadão
05/06/2002
|