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Pulso firme, calma budista
e um bom salto alto
Daniela Name

Pulso firme, calma budista e
um bom salto alto. Com estes três ingredientes,
Margareth de Moraes comanda os bastidores da
mostra “Surrealismo”, que o Centro Cultural
Banco do Brasil inaugura na próxima segunda-feira.
Disputadíssima no mercado, a museóloga de 45
anos coordena a equipe de 15 pessoas que inspeciona
as dezenas de caixas com Mirós, Magrittes e
Dalís que chegam diariamente ao CCBB. E transformam
a linha de montagem da exposição num quebra-cabeças
que exige experiência e muito autocontrole.
— Existe todo um ritual contra
o qual não posso lutar. As obras que chegam
de fora do país precisam de 24 horas de aclimatação.
Não posso abrir as caixas antes disso, seria
criminoso. Então, não tenho outra saída senão
esperar e tentar manter tudo sob controle —
diz ela, que, antes de “Surrealismo”, montou
“Esplendores de Espanha” e “De Picasso a Barceló”
e virou xodó da empresária Frances Marinho,
produtora das duas mostras. — Fico cansadíssima
se usar tênis ou sandália. Mesmo cansada, acabo
demorando a dormir, por causa da dor nas pernas.
Orgulhosa das mechas brancas em
seus belos cabelos negros, Margareth enfrentou
em cima do salto o grande desafio de sua carreira:
percorreu os 16 mil metros quadrados do núcleo
histórico da 24 Bienal de São Paulo, coordenando
a montagem de obras de estrelas como Van Gogh
e Tarsila do Amaral, escolhidas a dedo pelo
curador Paulo Herkenhoff. A Bienal começou como
um teste casca grossa ainda na afinação da montagem,
quando Margareth era obrigada a repetir um discurso
ensaiadíssimo para os representantes de todos
os museus internacionais que haviam emprestado
obras. Esclarecia que o núcleo histórico tinha
todas as condições de temperatura e umidade
para receber as peças; que o Brasil ficava no
Terceiro Mundo, mas a Bienal de São Paulo já
tinha uma tradição no trato com grandes peças;
que toda a equipe estava treinadíssima para
o manuseio daqueles tesouros.
Convenceu a todos e já estava
preparada para relaxar e desopilar o fígado
quando a Bienal bateu recorde de público no
sábado seguinte à inauguração.
— Ia haver uma jantar de confraternização
da equipe na casa do Julio Landmann (presidente
da Fundação Bienal na época) , mas eu fiquei
tão preocupada com o número de pessoas que resolvi
não ir à festa. Pedi ao Herkenhoff para pedir
desculpas em meu nome e fiquei com uma equipe
na exposição.
Santa intuição. Naquela mesma
noite, uma chuva de granizo, uma das maiores
que São Paulo já viu, entupiu as calhas do prédio
da Fundação Bienal. A primeira pedra de gelo
caiu perto da museóloga, que correu para desmontar
tudo o que tinha levado semanas para deixar
pronto. Dias depois, voltou a enfrentar os representantes
de todos os museus internacionais, que, histéricos,
pegaram vôos para voltar ao Brasil e tirar satisfação
sobre suas peças.
— Não houve jeito, tive que restabelecer
a relação de confiança. Foi duro, principalmente
porque tudo aconteceu no momento em que a gente
já está condicionado a relaxar, logo depois
da inauguração — lembra ela.
Museóloga há 20 anos — 12 deles
passados no Museu de Arte Moderna — Margareth
hoje tem uma empresa especializada em exposições
de grande porte. Mas ela lembra que o namoro
com a profissão começou bem recatado.
— Eu fazia bioquímica na UFF e
todo dia, quando pegava a barca para voltar
de Niterói, acabava passando no Museu Nacional
— diz ela, que acabou se formando em museologia
pela Uni-Rio.
Em “Surrealismo”, a maior dificuldade
é conseguir abrir todas as caixas a tempo, coordenando
as peças que chegam das mais de 60 instituição
envolvidas e, ao mesmo tempo, respeitando todas
as condições de aclimatação que garantem a segurança
da obra.
— Só posso responder por mim,
mas a dificuldade do meu trabalho é que ele
depende de outras pessoas, da cenografia aos
fiscais da alfândega. Se algo sai errado, vira
um castelo de cartas — diz ela, que garante
que, mesmo em meio aos maiores incêndios, não
recorre a calmantes e nem sai do prumo. — Sempre
acaba dando certo.
Para que a orquestra dos bastidores
não desafine, ela faz reuniões com todos os
setores da instituição que abriga a mostra —
no início da semana, fez uma palestra para os
seguranças do CCBB — porque acredita que as
regras são mais respeitadas quando são compreendidas.
O produtor da exposição, Romaric Sulger Büel,
garante que também deve obediência a ela:
— Não dou um passo sem consultá-la.
Ao longo da montagem, ela vai ser a chata-mor,
aquela que vai criar todas as regras. Mas todos
nós sabemos que não podemos viver sem Margareth.
Fonte: Jornal O Globo
16/08/2001
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