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Arte do Chelpa Ferro opõe homem e
máquina
Fernando Oliva
O grupo de artistas Chelpa Ferro, uma das manifestações mais instigantes
surgidas no cenário das artes brasileiras nos últimos
anos, inaugura hoje em São Paulo uma exposição com
12 trabalhos inéditos que oferece ao público um estranho,
variado e infinito banquete de sensações visuais e
auditivas.
Essa mostra pode ser vista como uma bem-humorada e
inteligente ilustração do embate entre pólos antagônicos:
homem x natureza, industrial x orgânico, artificial
x natural. Mas também entre o homem do passado e o
contemporâneo, o lúdico que depara com o tecnológico,
o confronto do ser humano com a máquina.
Na verdade, mais que uma disputa, a obra do Chelpa
Ferro promove uma reconciliação - como fez o artista
alemão Joseph Beuys em Bateria de Capri (1985),
uma de suas obras mais geniais: uma lâmpada elétrica
com soquete acoplada a um limão. Pelo alto grau de
experimentação, criatividade e ousadia, quem for ver
as obras do Chelpa vai lembrar muito de Beuys, assim
como dos dadaístas, de Picasso, Picabia, Duchamp e
do músico alemão Stockhausen.
Não por acaso, uma das obras mais poéticas da exposição
parte de uma idéia bastante simples, como uma brincadeira
de criança: um copo d´água apoiado sobre um alto-falante,
por sua vez ligado a uma máquina que permite variações
de freqüência sonora. As vibrações do alto-falante
constroem desenhos dinâmicos na superfície da água,
como se o espectador estivesse diante de um pequeno
mar ou um deserto agitado pelo vento forte. Conforme
muda a freqüência da máquina, muda o desenho dentro
do copo.
Outra obra é formada por um galho de árvore fixado
à parede, no alto, do qual pendem dezenas de vagens
com sementes secas. O galho está conectado a um pequeno
motor que, acionado, faz balançar as vagens, recriando
um barulho de chuva ininterrupto.
Já Sistema N.º 1 coloca alto-falantes sobre
aquários cheios d´água, alguns contendo caramujos.
A obra reproduz uma música experimental composta pelo
grupo, reunião de sons naturais e eletrônicos.
Também serão expostas duas esculturas de resina de
poliéster negra, criadas a partir de embalagens de
produtos eletrônicos. As formas, no meio caminho entre
o orgânico e o industrial, remetem ao universo do
cineasta David Cronenberg, não por acaso um artista
que também pensa as relações entre o homem e a máquina.
Surgido há sete anos, o Chelpa Ferro é um "grupo colaborativo"
de arte. A proposta é reunir pessoas de áreas diferentes
para criar, tendência que esteve em baixa nos últimos
15 anos, mas que agora volta com força ao circuito
- e se faz presente de maneira decisiva na coletiva
Panorama, em cartaz no MAM-SP, com os grupos Atrocidades
Maravilhosas, Camelo, Clube da Lata, Mico, Apic e
o próprio Chelpa Ferro, além das organizações independentes
de artistas Agora/Capacete, Alpendre e Torreão.
O Chelpa é formado por quatro integrantes: Luiz Zerbini
e Barrão (artistas plásticos cariocas que surgiram
nos anos 80), o produtor musical Chico Neves e o editor
de imagens Sérgio Mekler. "Todas as obras que criamos
são debatidas em conjunto, democraticamente. Eu não
sou músico, mas dou palpite no trabalho do Chico Neves",
conta Zerbini.
"A tecnologia criou ferramentas que deixaram mais frouxos
os limites entre as áreas de criação artística. Como
os gráficos sonoros do Pro Tools, em que eu posso
"ver" as notas e mexer com elas como se fossem símbolos
gráficos."
No começo, eles faziam apenas música, apesar de nenhum
deles ser músico. Os primeiros shows foram no projeto
CEP 2000, no Rio, idealizado pelo poeta Chacal.
Em um deles, reuniram 14 guitarras no mesmo palco.
"A idéia era fazer de improviso total, não tinha ensaio,
só passagem de som. Era bem barulhento. Mas é claro
que havia um lado performático também", lembra Barrão.
Em 1997, eles lançaram um disco pelo selo Rock It!
A música do grupo, que contém muitos ruídos industriais
e eletroeletrônicos, é também uma escultura sonora,
que constrói diferentes camadas e níveis por onde
o espectador viaja, não só com os ouvidos, mas com
o corpo todo.
Lia Menna Barreto - No mezanino da Fortes Vilaça,
a artista Lia Menna Barreto, do Rio Grande do Sul,
expõe duas obras: um tapete criado com 7 mil lagartixas
de borracha e um objeto de parede feito com centenas
de borboletas falsas.
A artista, que já declarou: "Eu dou vida às coisas
inanimadas", desta vez troca os sapos, cobras, ratos,
aranhas e escorpiões por animais menos assustadores.
Ela constrói duas tramas artificiais, em que novamente
vem se unir um olhar infantil e lúdico a um estranho
componente de crueldade.
As lagartixas são unidas umas às outras por meio de
um ferro de passar roupa, que derrete sua parte traseira,
numa rede infinita que aprisiona os pequenos répteis.
O resultado causa um misto de atração e repulsa. Há
um sentido de movimento latente, como se os animais
estivessem constantemente buscando escapar da trama,
mas aprisionados para sempre.
Lia Menna Barreto chama a atenção para o aspecto construtivo
desses novos trabalhos: "Essas duas obras não têm
fim. Elas podem ir aumentando infinitamente, como
uma coisa viva. Eu só parei porque chegou o dia de
trazê-las para a galeria."
O relevo de borboletas, supercolorido, ela vê como
uma pintura. "Elas ficam em latas, separadas por cor:
todas as primárias, mais laranja e verde", explica
ela. "Então eu vou escolhendo as cores, dentro de
cada lata, e unindo uma borboleta à outra, como se
estivesse usando tinta e pincel."
Chelpa Ferro e Lia Menna Barreto. De terça
a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das 10 às 17
horas. Galeria Fortes Vilaça. Rua Fradique Coutinho,
1.500, tel. 3032-7066. Até 30/11. Abertura hoje, às
20 horas.
Fonte: Jornal Estadão
31/10/2001
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