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Mostra em NY reúne primeiras obras de Chagall
Tonica Chagas

Trabalhos que ficaram na Rússia, quando o artista deixou seu país e partiu para o exílio, em 1922, são expostos pela primeira vez nos Estados Unidos

"Um dos murais pintados para o Teatro Estatal de Câmara

NOVA YORK - Desenhos e pinturas de Marc Chagall feitos quando ele tinha entre 21 e 33 anos - inspirados pela vida em Vitebsk, cidade russa onde ele nasceu, por relacionamentos e sua identidade de judeu - registram o nascimento da linguagem visual do artista e trazem características que sustentaram toda a sua obra. Esses trabalhos ficaram na Rússia quando ele partiu de lá, definitivamente, em 1922, e quase desapareceram nos labirintos ideológicos do país. Somente agora, alguns deles estão sendo exibidos pela primeira vez nos EUA.

Vê-los na exposição Marc Chagall: Early Works from Russian Collections, apresentada pelo Jewish Museum, em Nova York, até 14 de outubro, é admirar o vôo inicial da expressão de um dos grandes artistas do modernismo e de todo o século 20. Produzidos entre 1908 e 1920, os 56 quadros reunidos nessa mostra são básicos para a compreensão do vocabulário visual singular do artista. Além deles, nove pinturas de Yehuda Pen (1854-1937), professor de arte de Chagall ainda em Vitebsk, são exibidas como exemplo da primeira influência artística.

A maioria das obras foi emprestada pela Galeria Estatal Tretyakov, de Moscou, e pelo Museu Russo Estatal de São Petersburgo. Outras vieram de museus provinciais e colecionadores particulares russos. Nelas o pintor imprimiu metáforas de seu mundo particular e de dois grandes eventos históricos, a 1.ª Guerra Mundial e a Revolução Russa. Num ensaio publicado no catálogo da mostra e intitulado O Paraíso Perdido de Chagall, a curadora Susan Tumarkin Goodman demonstra como os anos em que o pintor viveu na Rússia o levaram a desenvolver sua memória visual e a criar imagens que sensibilizam qualquer um que ponha os olhos nelas.

Memória - Chagall (1887-1985) nasceu na cidade de Vitebsk, no território de colonização localizado ao sul de São Petersburgo e a oeste de Moscou onde, por decreto do czar Nicolau I, os judeus viveram confinados desde 1835 até 1917. Em 1906, o ainda Moisei Segal começou a estudar pintura e desenho na primeira escola de artes da cidade, criada por Yehuda Pen. Como pintor, o realista Pen selecionava seus temas do cotidiano dos judeus russos, representando cenas domésticas e personagens com atribuições transformadas em metáforas, dando formas realistas a suas visões interiores. Seu aluno cobriu de imaginação temas e visões semelhantes.

Como o professor em sua época de formação artística, Chagall também foi para a então capital russa, São Petersburgo, para estudar. Registrou-se na mais progressiva escola de arte do país, a Zvantseva. Vivendo de subempregos e pouco adaptado aos grupos sociais da capital, ele revela sua saudade de casa no quadro A Janela, um óleo de 1908, o mais antigo de seus trabalhos que ficou na Rússia. Na tela, ele relembra a paisagem que via de sua casa, em Vitebsk.

Inspiração - O jovem começou a cercar-se de rostos familiares, fazendo de memória uma série de retratos de parentes. O avô materno, com quem ele passava férias, é lembrado executando seu trabalho de açougueiro num cômodo de perspectiva distorcida onde se vê a estrela de Davi numa parede e um estranho cabritinho verde, animal de grande simbologia para os judeus e encontrado em muitas pinturas do artista. Em 1909, um novo personagem começa a aparecer no mundo irreal das telas dele. É Bella Rosenfeld, filha de um joalheiro de Vitebsk. O amor pela moça passou a ser uma imensa inspiração para Chagall, que o festejou em pinturas por toda a sua carreira.

Em 1910, com a ajuda de um patrão a quem vendeu dois quadros, Chagall foi viver em Paris. Lá estudou nas academias La Palette e La Grande Chaumière e passou a usar o nome pelo qual ficou conhecido. Vivendo e trabalhando entre artistas como Fernand Leger, Amedeo Modigliani e Chaim Soutine, ele fundiu as experiências trazidas de sua terra e infância com as correntes fauvista e cubista e desenvolveu seu estilo, inspirado pela imaginação e por suas memórias.

O pintor russo começou a criar fama a partir da França. Em 1914, depois de realizar sua primeira exposição individual em Berlim, ele decidiu fazer o que pensava ser uma breve visita a Vitebsk para rever Bella. Mas, com o início da 1.ª Guerra Mundial e a impossível travessia de fronteiras, Chagall ficou na Rússia pelos próximos oito anos.

De volta à terra natal, outra vez diante do que antes tinha só na memória, ele recomeçou a pintar. Os primeiros trabalhos nesse retorno foram vários auto-retratos. Susan Goodman toma como exemplo o que foi incluído na exposição para apontar nele a sugestão de um processo de reinvenção pessoal.

Vestido numa fantasia, o pintor se mostra diante de uma tela vazia.

No começo, feliz por estar de volta entre pessoas e cenários conhecidos, Chagall registrava tudo o que via. Fez uma série com cerca de 70 pinturas e desenhos que chamou de Documentos, dos quais fazem parte muitos retratos de sua família. Mas depois veio a frustração por ele estar limitado naquela cidade pequena, longe do entusiasmo e da celebridade que havia experimentado em Paris. Essa tristeza transparece em O Relógio, uma grande tela de 1914, na qual a figura dele mesmo diante de uma janela é muitas vezes menor do que o grande objeto que marca a lenta passagem do tempo.

Chagall e Bella se casaram em julho de 1915. Em setembro daquele ano, ele foi requisitado para o serviço militar, mas graças à influência de um cunhado, foi para Petrogrado (então ex-São Petersburgo) trabalhar num departamento do Escritório de Economia de Guerra. O conflito levou-o a criar uma série toda sobre soldados e muitos desenhos de fundo preto sobre gente ferida, casais se separando e refugiados. Em maio de 1916, nasceu sua filha, Ida. O amor entre ele e sua mulher continuou a inspirá-lo e muitas composições dessa época representam a vida real e sonhada do casal. Apesar da guerra, o artista continuou a pintar e a expor, passando a ser reconhecido como uma das grandes figuras da avant-garde russa.

Política - Com o fim do governo czarista e a vitória da Revolução Bolchevique, Chagall foi indicado para um posto de direção no recém-formado Ministério da Cultura. Mas Bella preferiu que o marido não se engajasse na política e a família voltou para Vitebsk. O casal aparece em duas grandes pinturas feitas lá, entre 1914 e 18. Em O Passeio, numa das mãos segura um passarinho e com a outra serve de âncora para a mulher que flutua. Em Sobre a Cidade, ele mostra os dois flutuando e junta o sublime ao ridículo, pintando uma pessoa que se "alivia" à beira de um muro.

A Aparição (que, segundo o pintor, se refere ao sonho que ele teve com um anjo entrando em seu quarto, ainda nos tempos de estudante em São Petersburgo), produzida entre 1917 e 1918, é uma das últimas grandes telas pintadas por Chagall em sua cidade. Lá também ele produziu pequenos desenhos para ilustrar Contos em Verso, um livro infantil iídiche com poemas de Pinchas Kaganovich. Nesses trabalhos, Susan Goodman salienta uma clara mudança em Chagall, da representação da realidade para a mistura de fantasia com a modificação dos estilos que ele havia experimentado em São Petersburgo e Paris.

Confiante no novo regime bolchevique, em 1918 Chagal aceitou o cargo de comissário de belas-artes para o distrito de Vitebsk. Sua primeira tarefa foi decorar a cidade para as comemorações do primeiro aniversário da nova república russa, para o que ele mobilizou todos os artistas e artesãos a fim de levar arte ao povo. Mas o estilo da decoração, cheia de animais voadores, causou mais estranheza do que alegria na platéia. Chagall acabou deixando o cargo e Vitebsk de vez em 1920, empurrado por uma disputa estética e ideológica entre professores e alunos da academia de arte que ele mesmo havia fundado lá. Os artistas Kasimir Malevich e El Lissitzky, defensores das teorias suprematista e construtivista, criticando o estilo de Chagall como ultrapassado, armaram uma conspiração e o forçaram a demitir-se.

Teatro - O pintor então refugiou sua criatividade no teatro, colaborando em produções para os soldados do Exército Vermelho e desenhando cenários para peças de Gogol que não chegaram a ser apresentadas.

Em 1920, ele aceitou a maior encomenda de um projeto teatral que realizou em seu país: a de desenhar cenários e figurinos para a inauguração do Teatro Estatal de Câmara da comunidade judia em Moscou. Fez todo o trabalho em menos de um mês. O resultado quase completo (faltando apenas a pintura do teto e a da cortina do palco, perdidas quando o teatro mudou de localização, em 24) ocupa a última e maior galeria do Jewish Museum. Os sete murais são as únicas obras das primeiras duas décadas de carreira do artista que já haviam sido exibidos deste lado do Atlântico.

Os murais são compostos por quatro figuras tradicionais do judaico, em tamanho natural, representando a música, a dança, o teatro e a literatura.

Sobre essas quatro telas, uma longa frisa representa a mesa de um casamento com todos os seus pratos rituais. Na parede oposta encontra-se o maior de todos os quadros reunidos para a mostra, Introdução ao Teatro Judeu, com 284 centímetros de largura por 787 de comprimento. Neste, entre formas geométricas e cores prismadas, o pintor incorporou retratos de pessoas reais (como ele mesmo, de palheta na mão) e personagens imaginados. O último painel, Amor no Palco, é baseado no pas-de-deux, mas a bailarina e seu partner são desmembrados para seguir o ritmo das figuras geométricas que compõem a imagem.

Chagall nem chegou a ser pago por esses murais, o último trabalho que realizou na Rússia. Ainda antes do expurgo artístico do stalinismo, ele e outros artistas começaram a sentir as restrições a suas atividades impostas pelo governo, como a nacionalização de coleções e o fechamento de galerias particulares. A solução foi o exílio, primeiro na Alemanha e depois na França. Chagall só voltou ao seu país, para uma visita, em 1973.

A partir de então e lentamente, as obras que ele deixou lá começaram a sair do desterro e ser vistas na própria Rússia e no exterior, chegando, finalmente, depois de quase 30 anos, ao alcance do público americano.

Presume-se que os quadros reunidos em Marc Chagall: Early Works from Russian Collections equivaleriam a mais ou menos a metade dos trabalhos que deixou para trás da histórica Cortina de Ferro.

Fonte: Jornal Estadão
24/07/2001