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O Rio generoso de Vieira
e Szenes
Daniela Name

O Rio foi o refúgio de Maria
Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes quando
o casal precisou deixar a Europa fugindo do
nazismo. Húngaro de origem judaica, ele viu
a própria pintura mudar sob a influência da
luz tropical. Portuguesa e introvertida, ela
sofria terrivelmente com o calor carioca. Mas
produziu tanto e tão bem quanto o marido no
tempo em que os dois moraram em Santa Teresa,
como mostra a exposição “Arpad Szenes/Vieira
da Silva — Período brasileiro”, que a Casa França-Brasil
inaugura hoje. —
Quando a guerra estourou, Vieira
ainda tentou voltar para Lisboa e pedir a nacionalidade
portuguesa para Szenes, mas o pedido foi negado
pela ditadura de Salazar — conta Ivone Felmann
da Cunha Rêgo, que trabalha na fundação que
leva o nome dos artistas, em Lisboa, e assina
a curadoria da exposição.
Para Ivone, o calor humano e a
solidariedade de amigos como a poeta Cecília
Meireles e seu marido, Heitor Grillo, não só
viabilizaram a estadia dos dois no Brasil como
transformaram-na em algo mais agradável.
— Os dois tinham muitas dificuldades
financeiras e Grillo, que dirigia a Universidade
Rural naquela época, encomendou obras do casal
para decorar a universidade — lembra a curadora,
que ressalta que o casal participou do amadurecimento
do modernismo brasileiro.
As encomendas deram origem ao
painel de Vieira da Silva que até hoje está
na Rural, decorando o refeitório apesar da necessidade
de uma restauração. Para Szenes, Grillo pediu
retratos de cientistas que deram origem à série
“Quilômetro 44”, uma referência à entrada para
universidade, em Seropédica, na verdade no quilômetro
47 da antiga Rio-São Paulo. Os estudos das obras
são um dos pontos altos da exposição, mas não
se sabe o que aconteceu com os painéis originais.
Chama muita atenção, também, o
módulo “Maria Helena e Arpad”, que deixa clara
a obsessão do húngaro em retratar a amada. Eles
aparecem juntos em “O casal” e “No ateliê”,
enquanto Vieira é vista só, geralmente pintando,
em “Bicho grega”, “Vieira” e na série de retratos
entitulada “Maria Helena”. No de número 10,
o pintor comove pelo jogo de imagens — Szenes
pinta Vieira, que pinta Szenes. A metaimagem
já aparecia em “Retrato de família”, em que
o pintor faz seu auto-retrato com a mulher,
que se estica num sofá.
A tranqüilidade da casa-ateliê
e o idílio do casal com a paisagem do Rio —
visto no módulo “Ambientes” — contrasta com
“Guerra”, parte da exposição em que desenhos
e telas dos dois artistas mostram que eles não
se desligaram das feridas abertas na Europa
naquele período em nenhum instante em que estiveram
do outro lado do oceano. “História trágico-marítima”,
de Vieira da Silva, é considerada uma das obras-primas
da pintora e foi posta lado a lado com desenhos
que mostram sua preocupação com os refugiados
e o desaparecimento de amigos.
— Vieira nunca esqueceu a guerra
— diz Ivone, que acha que os pintores não se
influenciavam mutuamente. — As obras deles são
complementares, mas os dois seguiram caminhos
muito distintos a partir dos anos 40.
Fonte: Jornal O Globo
30/07/2001
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