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Mostra propõe passeio pela
escultura do século 20
Mariana Hizman
Sesi abre nesta terça a exposição
Caminhos da Forma, com o melhor da arte tridimensional
do acervo do Museu de Arte Contemporânea
São Paulo - Dando continuidade
ao projeto de parceria entre o Museu de Arte
Contemporânea (MAC) de São Paulo e o Sesi, que
leva à Avenida Paulista uma série de exposições
reunindo o melhor desse rico acervo, será aberta
amanhã ao público, na galeria situada no prédio
da Fiesp, a exposição Caminhos da Forma,
um passeio pela escultura brasileira e internacional
do século 20.
Com curadoria de Kátia Canton
- que também desenvolveu Auto-Retratos,
a mostra anteriormente exibida no mesmo espaço
e que teve visitação recorde do público escolar
-, essa exposição não pretende resumir os caminhos
da produção tridimensional do século 20, mas
mostrar caminhos e escolhas feitas pelos artistas
ao longo do período enfocado. Segundo Kátia,
as difíceis opções que teve de fazer entre as
quase 3 mil esculturas pertencentes ao acervo
do MAC, assim como o conceito da exposição,
foram determinados pelas próprias obras.
A abordagem adotada não foi geográfica
nem temática e muito menos cronológica. O espaço
da galeria foi transformado numa espécie de
jardim de inverno - termo usado pela curadora
para definir o espaço amplo, sem divisórias,
em que as peças se justapõem, fazendo com que
o olhar do público sempre esteja contaminado
- e subdividido em dois núcleos centrais: A
Dança da Forma e Histórias da Forma.
Não se trata de duas linhas opostas
e muito menos reducionistas, que pretendem abarcar
toda a história da escultura do século 20. Até
porque, se pensarmos em termos cronológicos,
a mostra começa com o futurismo e tem uma presença
importante da produção contemporânea - reflexo
do interesse da curadora pelas pesquisas artísticas
mais recentes.
Assim, o lado esquerdo do espaço
é ocupado por obras que têm relação com a questão
do movimento, um dos temas centrais da escultura.
"No núcleo da Dança temos as obras que se materializam
no tridimensional, buscando o movimento", explica
Kátia. Já no segmento das Histórias (que ocupa
o lado direito da sala e acaba tendo uma área
um pouco maior, não tanto por reunir um número
maior de trabalhos, mas por estas serem mais
volumosas), vemos uma série de comentários sobre
o mundo. "Mesmo quando essas obras são abstratas,
há um título que lhes dá algum sentido ou uma
materialidade que procura dar algum sentido
à vida", diz a curadora.
Cada um desses núcleos é aberto
com obras emblemáticas, assinadas pelo futurista
italiano Umberto Boccioni - um dos destaques
internacionais do acervo do MAC - e por Victor
Brecheret. Enquanto Desenvolvimento de uma
Garrafa no Espaço e Formas Únicas da Continuidade,
de Boccioni, simbolizam a tentativa de dar movimento
e ritmo à forma fixa e imutável da escultura,
as obras de Brecheret abrem um núcleo de trabalhos
que falam da vida, da natureza; são uma reflexão
artística e poética sobre a realidade.
Os dois caminhos explorados pela
curadoria não são opostos nem pretendem exaurir
os vários rumos tomados pela arte tridimensional
no século 20. Os encontros são muitos, como
faz questão de demonstrar a montagem da exposição
que coloca, na interseção entre os dois núcleos,
alguns trabalhos que pertencem aos dois mundos
abordados. A obra síntese, a peça DoremifasolasiDore,
de Nelson Leirner, é a única peça de parede
de toda a mostra.
Paralelamente a essas duas linhas
mestras, a exposição está cheia de pequenos
núcleos, com temas mais específicos, que prometem
atrair o interesse do espectador. Entre eles
temos um conjunto de móbiles, que contrapõe
a leveza lúdica de duas peças de Calder (que
estão entre os destaques da coleção do museu)
com um trabalho de Carmela Gross, que lembra
uma cortina de pedras e que nunca havia sido
exposto pelo MAC desde sua aquisição.
Há também um conjunto curioso
de objetos que lidam com a idéia de receptáculo,
como a mala grafitada de José Carratu ou uma
assemblage de Farnese de Andrade; ou então um
núcleo de animais e outro de elementos de paisagem,
que prometem atrair bastante o interesse do
público mais jovem. "Esse é um dos momentos
lúdicos da exposição, que permite comparar as
diferentes maneiras de lidar com o mesmo tema",
explica Kátia Canton.
Todos os trabalhos reunidos na
Galeria do Sesi pertencem à coleção do MAC,
com exceção de duas peças bastante atuais, que
o museu tem interesse de incluir em seu acervo,
assinadas por Sérgio Romagnolo e Paulo Climachauska.
O primeiro, Menina com Calça de Boca de Sino,
pertence à série de esculturas que o artista
apresentou no ano passado e que retratam suas
filhas. Já a peça de Climachauska - uma mesa
absolutamente comum, que tem como única intervenção
uma conta simples de subtração gravada em seu
tampo.
Fazendo parte da série de trabalhos
feitos por Climachauska, que associa a redução
matemática que tende sempre ao zero e a linguagem
artística, essa obra acaba por servir de metáfora
sobre a tentativa de "realizar anotações que
buscam atribuir sentidos, calcular possibilidades
e, assim, controlar a vida", afirma a curadora.
Obra em contexto - Como
já se tornou praxe nas exposições do MAC, a
mostra Caminhos da Forma vem acompanhada
de uma pequenha inserção intitulada Obra
em Contexto, que põe em relevo a pesquisa
de um determinado artista contemplado pelo acervo.
Desta vez, o tema abordado serão os objetos
políticos de Sonia von Brusky, a artista que
soube combinar militância política contra a
ditadura militar e discurso artístico, criando
objetos que denunciam questões como a censura,
o olhar persecutório da repressão ou a dominação
imperialista, como vemos em Bebês Brasileiros
Mamam Coca-Cola.
Caminhos da Forma. De terça
a sábado, das 10 às 20 horas; domingo, das 10
às 19 horas. Galeria de Arte do Sesi. Avenida
Paulista, 1.313, tel. 248-3639. Até 28/10.
Fonte: Jornal Estadão
21/08/2001
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