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Bonifácio abre sua primeira mostra individual
em SP
Maria Hirszman
Com mais de 20 anos de carreira, o pintor fluminense Henrique
Bonifácio inaugura amanhã sua primeira exposição individual em São
Paulo, trazendo para a cidade suas telas sedutoras, marcadas por
uma intensa pesquisa cromática e por uma preocupação em explorar
ao máximo a superfície da tela com uma cuidadosa composição gráfica
marcada pela superposição de diferentes elementos.
Uma das características centrais da obra de Bonifácio é a transição
entre os diferentes temas da pintura, mesclando sem cerimônia naturezas-mortas
e paisagens (internas ou externas), criando um ambiente onírico
bem particular.
As cerca de 40 telas selecionadas para a exposição na Portal Galeria
pertencem ao que o pintor considera sua vertente mais figurativa,
mesclando diversos elementos, mas que remetem invariavelmente ao
mundo real. Com exceção de algumas obras de menor dimensão, como
a tela em que ele utiliza um repertório de tendência cubista e que
tende mais ao abstrato.
Sem se prender a um único estilo, Bonifácio afirma ter desenvolvido
experiências nas mais diferentes direções, partindo desde as lições
mais clássicas do modernismo a uma desfiguração da realidade que
tende ao concretismo, num jogo de reconstrução geométrica que, segundo
ele, remete à obra da mestra portuguesa Maria Helena Vieira da Silva.
Uma das razões dessa referência a Vieira da Silva decorre do fato
de Bonifácio ter abandonado definitivamente a noção de perspectiva.
Como num caleidoscópio, ou num funil - como define o pintor -, suas
pinturas são feitas de cacos que se justapõem. "Em vez de crescer
para os lados, a composição cresce para o fundo do quadro", explica
ele.
No que se refere à cor vibrante que adota em seus trabalhos, o
pintor niteroense conta que isso foi se intensificando com a experiência,
já que lidar com a cor é algo que requer um conhecimento profundo.
Entre seus grandes mestres, ele cita Matisse e Dufy, a cujas obras
recorreu para construir sua própria obra decorativa.
Se os dois mestres franceses foram essenciais para a formatação
de sua obra, Bonifácio também tem seus mestres brasileiros, que
admira e de quem procurou tirar lições, como Aldemir Martins e Iberê
Camargo.
Para ele, beleza e sedução são dois aspectos fundamentais da arte.
E reconhece que, apesar de contemporâneo no que se refere ao tempo
em que vive, sua obra não está em sintonia com as experiências pictóricas
de vanguarda. "Não me considero um pintor dos novos conceitos, mas
alguém que explora idéias universais, sempre atuais", resume.
Sua inspiração está permanentemente diante de seus olhos. Os azuis
e verdes quase onipresentes em seu trabalho vêm das belas imagens
que vê de seu ateliê na Praia de Itaipu, em Niterói. "Convivo com
isso, não posso me isolar da minha vida", diz ele reconhecendo,
no entanto, que sua nota cromática é um pouco mais alta. Para conseguir
essa vibração e essa abertura de cores, ele costuma normalmente
colocar em primeiro lugar as cores mais intensas, aplicando sobre
elas os tons mais rebaixados.
O efeito de sedução cromático também é favorecido pelo uso de transparências,
que aprendeu lidando com a aquarela. As telas que traz a São Paulo
são todas feitas em tinta acrílica, já que teve de abandonar a tinta
a óleo em decorrência de uma forte intoxicação. Mas o guache, a
aquarela e o desenho continuam fazendo parte de suas formas de expressão.
Esse mesmo desejo de registrar o que está à sua volta explica,
parcialmente, a escolha dos temas. Vê-se na obra de Bonifácio a
paisagem recortada por morros de sua terra natal, referências ao
trabalho intimista de ateliê e até mesmo referências à sua infância,
numa pintura que tem muito de auto-retrato. Trata-se da imagem de
um garoto, que olha encantado as imagens de pipas coloridas voando
no céu.
Laboratório - O pintor não sente necessidade de se ater
a um tema ou estilo predominante, considerando cada uma de suas
obras como uma experiência criativa enriquecedora. "Minha idéia
é aprender muito. Cada tela é um laboratório", explica ele.
Da imagem do garoto que admira alegremente as pipas, que traz muito
das recordações de infância, Bonifácio transita sem nenhum problema
para trabalhos de cunho mais sensual, como a imagem que ilustra
o convite da exposição e que faz parte de uma longa série de pinturas
de caráter mais erótico, para líricas paisagens interioranas ou
ainda para estudos mais clássicos de naturezas-mortas.
Os temas domésticos e a escolha de uma paleta vibrante não fazem,
no entanto, com que a obra de Bonifácio possa ser catalogada como
ingênua. "Tenho um pouco mais de malícia do que os naïfs", brinca
ele, lembrando que "quanto mais primitivo em termos de arte, melhor
se torna a pintura".
Henrique Bonifácio. De segunda a sexta, das 10 às 20 horas;
sábado, das 10 às 15 horas. Galeria Portal. Rua Estados Unidos,
2.241, tel. 3081-0155. Até 26/10. Abertura amanhã (26), às 20 horas.
Fonte: Jornal Estadão
26/09/2001
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