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Rio vai ganhar Museu Bispo do Rosário - Paredes para
o inventário da loucura

Renato Fagundes

o casarão será reformado

 

Belíssimo sítio histórico do Rio oculto pela longa e assustadora evolução do tratamento psiquiátrico no Brasil, o núcleo original do Instituto Juliano Moreira, em Jacarepaguá, vai abrigar o acervo produzido em anos de convívio de arte e loucura nas paredes fortificadas da antiga colônia de alienados.

Na casa do início do século 19, cercada por construções ainda mais antigas, como um aqueduto do fim do século anterior, a prefeitura promete instalar o Museu Bispo do Rosário, batizado em homenagem ao artista que, ao inventariar o mundo para mostrar suas criações a Deus, acabou por tornar-se um dos mais respeitados artistas contemporâneos brasileiros. São 812 obras catalogadas, parte delas com uma longa ficha de viagens e exposições pelo mundo - a próxima estréia dia 11 de setembro, no Guggenheim de Nova York.

Casarão foi sede de fazenda

A casa onde deve ser instalado o museu foi a sede da fazenda Engenho Novo, construção colonial caindo aos pedaços que é o centro de um conjunto erguido a partir do século 18. A primeira obra foi a instalação de um aqueduto destinado a conduzir a água das nascentes do maciço da Pedra Branca para mover os moinhos de fubá e abastecer os engenhos de cana das fazendas da região, hoje encravada em meio ao caos urbano da Taquara, Zona Oeste do Rio.

A construção colonial, cercada por uma grade sem portão para evitar que um desavisado paciente do instituto ou um visitante mais entusiasmado corra riscos lá dentro, empolgou o secretário municipal de Saúde, Ronaldo Cezar Coelho, um apaixonado pelas construções coloniais do estado - há 14 anos ele banca a reforma da sede da sua fazenda, em Vassouras.

- O Núcleo Histórico da Juliano Moreira é um assombro. Aquilo ali é do século 18, do dezoitão! É um conjunto colonial sem igual na cidade do Rio - afirma Ronaldo.

Idéia do projeto existe há cinco anos

Um dos mantos bordados por bispo

O projeto de instalar o Museu Bispo do Rosário naquela área vem sendo acalentado há cinco anos pelo diretor do instituto, o psiquiatra Paulo Fagundes. Com a ajuda de estudantes de arquitetura da Universidade Santa Úrsula, a equipe do instituto chegou a preparar um projeto de recuperação. A idéia era instalar o museu no Pavilhão 1, o primeiro local de internação de doentes mentais erguido na colônia, construído para a inauguração, em 1924, do então revolucionário centro de tratamento de alienados que saiu da Ilha do Governador para as terras em Jacarepaguá.
A obra foi orçada em aproximadamente R$ 500 mil - o Pavilhão 1, apesar de também estar em mau estado, não precisa de tantas intervenções quanto a sede da fazenda, o aqueduto e o chafariz centenário, que ajuda a compor o cenário de pracinha do interior onde o museu deve ser instalado. Ao lado da casa, há ainda a Igreja Nossa Senhora dos Remédios, inaugurada em 1862, em frente a uma série de casas que descaracterizaram a senzala do Engenho Novo.

Logo, é de se esperar que a obra completa vai custar uma fortuna - fortuna esta que a Juliano Moreira, que enfrenta dificuldades até para modernizar o atendimento aos 860 pacientes que ainda vivem internados nos cinco núcleos, não tem. E é aí que entram os contatos do secretário, que já usou sua experiência combinada de banqueiro e político para tentar trazer os Jogos Olímpicos para o Rio.

- Nós tentamos apresentar o projeto de recuperação para todo mundo, mas até agora nada tinha acontecido. Essa empolgação do Ronaldo com o núcleo histórico aumentou muito o alcance da obra, mas também é uma garantia de que agora ela vai para frente - afirma o diretor do instituto.

Restauração será feita pelos melhores profissionais do ramo

Ronaldo promete fazer de tudo para levar para frente o projeto. Uma semana depois de visitar o núcleo, falou sobre o projeto com o prefeito César Maia, que deu sinal verde para o secretário. Ronaldo afirma que vai levar para dentro da colônia alguns dos melhores profissionais de recuperação de imóveis históricos do Brasil.

- Vou falar com o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Quero o mesmo pessoal que trabalhou na recuperação da Fábrica de Pólvora do Jardim Botânico trabalhando no Museu Bispo do Rosário.

E o dinheiro, secretário?

- Isso não vai ser problema. Vamos ter aval do Ministério da Cultura e encontrar patrocinadores para a recuperação das construções.

Fonte: Jornal O Globo
31/08/2001