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Entender ou não entender
nada, eis a questão
Daniela Name
End, when you finish, you understand
nothing” (“E, quando você termina, não entende
nada”). A frase estampada na parede da sala
ocupada por Vadim Zakharov, um dos artistas
da 49 Bienal de Veneza, aberta desde o último
domingo para o público, é mais adequada para
outros trabalhos selecionados pelo curador-geral,
o suíço Harald Szeemann, do que para as fotos
do artista russo, que em “Theology conversation”
opõe um pastor (ele mesmo) a lutadores de sumô
para discutir diferenças religiosas e étnicas.
A obra de Zakharov, um dos muitos trabalhos
fotográficos do pavilhão — que tem cerca de
70% de sua área tomados por fotografias e videoinstalações
— é até bem clara se comparada a outras obras
que se propõem a destrinchar o abrangente tema
“Plataforma da humanidade” proposto pelo curador.
É difícil entender, por exemplo,
por que, a esta altura do campeonato, Szeemann
seleciona uma instalação que mostra um cubículo
branco com um saco de lixo preto dentro. Feita
por Gavin Dust, a obra parece a arte contemporânea
da caricatura, aquela que se esforça para ser
gratuita e para que ninguém a compreenda. O
Arsenale cansa com tantas salas de vídeo, mas
também reserva boas surpresas, mesmo no terreno
da videoinstalação. As obras de Bill Viola têm
o poder de mexer até nos corações mais duros.
Em “Quintet of the unseen”, o americano, de
50 anos, mostra cinco pessoas que olham para
algo terrível — ou tristíssimo — que nunca saberemos
o que é. O que inicialmente parece uma foto
absolutamente congelada vai se mexendo aos poucos
e o público acompanha as reações individuais
de cada personagem, se solidarizando com o careca
à direita, com o baixinho desesperado logo a
seguir, com a moça contida de rabo-de-cavalo.
Ainda em vídeo, dois trabalhos
de conhecidos cineastas fisgam o visitante de
imediato: Atom Egoyan se alia ao português Julião
Sarmento em “Close”, em que o espectador é obrigado
a enxergar a tela realmente bem perto, numa
das paredes de um corredor estreitíssimo. Em
cena, uma relação de paixão entre uma mulher
e o pé de uma outra pessoa. “A instalação será
uma meditação em projeção. O ato de receber
a projeção será um atividade gráfica e física
que envolve o espectador e o obriga a se reorganizar
espacialmente”, explica Egoyan nas anotações
para o trabalho. Outro cineasta, o iraniano
Abbas Kiarostami, emociona ao convidar o público
a observar um casal dormindo e o seu despertar
em tempo real.
— Não sigo nenhuma lógica, não
persigo um conceito. Aliás, eu simplesmente
odeio essa palavra. Exponho o que amo — diz
Szeemann, que acredita que “Plataforma da humanidade”
não é um tema, mas “uma dimensão”. — Tenho a
impressão de que estamos próximos de uma revolução,
de que as coisas vão mudar. Quando isso está
prestes a acontecer, a arte registra o que está
morrendo, se alia à decadência. Isso já está
ocorrendo.
A desilusão é clara não só nos
belos trabalhos de Viola, mas também na obra
de artistas mais jovens, como o trio formado
pelos americanos Barry McGee, Stephen Powers
e Todd James, que, em “Street market”, simula
os destroços de uma cidade decadente. No supermercado,
onde o público pode circular por entre as prateleiras,
encontra-se Dignidade e Vergonha em lata, Credibilidade
como amaciante de roupas e Inocência engarrafada.
Mas o que chama a atenção na Bienal é justamente
o que se distancia dessa discussão. Além das
três peças monumentais de Richard Serra no Jardim
da Virgem, as conversas do público dos primeiros
dias do evento giravam em torno das telas de
Cy Towbly e das esculturas hiperrealistas de
Ron Mueck. Australiano que foi uma das estrelas
de “Sensation: young British artists from the
Saatchi Collection” — exposição que em 1997
causou polêmica na Inglaterra e em Nova York
— Mueck é o cartão de visitas de Szeemann. E
instalou na entrada do Arsenale um garoto gigante
que, agachado, encara o público com imensos
olhos azuis. O artista apresenta ainda duas
obras de grande beleza plástica: um corpo de
bebê, preso na parede como um quadro, e um homem
agachado numa redoma de vidro.
“Bicho”, de Ernesto Neto, enche
de orgulho os brasileiros que ficam parados
na sala dedicada ao artista — uma das preferidas
pelas crianças — observando os que entram. A
primeira reação das pessoas é chegar para trás,
empurradas pelo cheiro das especiarias que recheiam
as gotas de tule de lycra. Depois, gastam um
bom tempo circulando pela peça e cheirando-a,
tentando distinguir onde estão cravo, pimenta
e açafrão.
Nos Giardini (Jardins), onde ficam
as representações nacionais, vem sendo difícil
entrar na mostra da Alemanha, que ganhou o Leão
de Ouro de melhor pavilhão. A espera na fila
é recompensada com a obra de Gregor Schneider,
que fez uma intervenção na própria arquitetura
do pavilhão.
— Trabalho sempre para tornar
um lugar menos importante do que ele parece
ser — diz Schneider.
Outros pavilhões de sucesso são
os do Canadá (o vídeo da dupla Janet Cardiff
e George Bures Muller ganhou um dos prêmios
de melhor artista) e da França (Pierre Huyge
foi premiado com uma instalação que simula uma
discoteca interativa). O pavilhão da Coréia
foi apontado como uma das grandes revelações.
No do Brasil, que vem tendo boa visitação, o
tecido de “O nascimento da deusa”, de Ernesto
Neto, já está bastante sujo, pois as pessoas
caminham (descalças) dentro da obra.
Fonte: Jornal O Globo
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