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Mostra apresenta arte aborígine da Austrália
Maria Hirszman

Cinco dezenas de artistas estão representados em The Native Born, que reúne obras produzidas nos anos 60, na Pinacoteca

São Paulo - A exposição The Native Born - Arte Aborígine da Austrália, que traz ao Brasil uma seleção de obras produzidas recentemente por cerca de 50 artistas nativos da Austrália, é ao mesmo tempo um conjunto atraente de belas obras de arte e um gesto político de um povo oprimido durante séculos e que vem, por meio da arte, afirmar sua identidade. Apesar de considerar a dimensão política dessa mostra bem inferior à de outras exposições que já realizou sobre a arte aborígine, o curador Djon Mundine concorda que essa é uma dimensão importante dessa exposição, que já circulou por vários países ao redor do mundo e chega agora a São Paulo.

"Se algumas dessas obras tivessem sido feitas por algum europeu de renome, por algum Picasso, estariam agora enfeitando as paredes de algum museu renomado", afirma. Mundine, que foi curador sênior do Museu de Arte Contemporânea de Sydney e da Galeria de Arte Aborígine do Museu Nacional da Austrália, exibe com orgulho as quase 150 obras feitas por artistas de duas comunidades, no norte da Austrália. "A arte ocidental é apenas intelectual e por isso considera-se superior", ironiza o curador.

São trabalhos realizados na primeira metade da década de 60 e não têm, como costumam esperar os ocidentais, um caráter utilitário ou ritualístico. Evidentemente, esses elementos culturais estão intrinsecamente relacionados à produção contemporânea dos aborígines, mas essas obras estão longe de ser objetos de uso. "Eles estão vivendo e fazendo arte, não uma arte da idade da pedra, mas belos objetos de arte, para serem colocados numa galeria e não um objeto de culto", afirma Mundine, ele mesmo fruto dessa relação entre o passado e o presente, entre Oriente e Ocidente, com seu longo cabelo aborígine e seus trajes e laptop ocidentais.

A grande maioria das obras resgata uma tradição iniciada no século 19, a da pintura sobre casca de árvore, na qual são utilizados pigmentos ancestrais, cujos primeiros registros datam de milhares de anos. Esses trabalhos têm uma especial conexão com a questão da terra, sendo utilizados pelos aborígines como um elemento essencial para a obtenção de registros de posse sobre suas terras de origem.

É impressionante o grau de detalhes e o rigor compositivo desses trabalhos, que também revelam uma grande preocupação com a questão do conhecimento, mostrando muitas vezes informações importantes como as imagens das entranhas dos bichos. Como explica Mundine, esses trabalhos são como "uma ´enciclopédia´ do meio ambiente, um lugar, uma estação do ano, um ser, uma canção, uma dança, um ritual, uma história ancestral e um relato pessoal".

Esse tipo de expressão artística só começou a ser valorizado na Austrália - cuja população indígena quase foi dizimada, caindo de 1 milhão de pessoas na época do primeiro contato para apenas 20 mil em 1900 e atualmente voltando a alcançar o índice de cerca de 400 mil indivíduos - em meados dos anos 60. Aliás, foi na mesma época que os aborígines conquistaram seu direito de plena cidadania.

Também há na mostra interessantes esculturas de animais, que algumas vezes lembram a arte popular brasileira, profundamente marcada pela cultura africana e indígena. Aliás, aproveitando os grandes paralelos entre as culturas nativas da Austrália e do Brasil, será realizado na quarta-feira, na Pinacoteca, um encontro para aprofundar esse diálogo.

Um dos destaques da exposição é uma grande instalação efêmera, feita de terra no octógono do museu. Proposta pelo artista Jimmy Wululu, essa escultura - que poderia muito bem lembrar as "land art" dos minimalistas americanos - é na verdade uma recriação de um importante ritual de purificação aborígine, utilizado para limpar-se do espírito do morto, após a realização de uma cerimônia funerária.

Serviço The Native Born. De terça a domingo, das 10 às 18 horas. Pinacoteca do Estado. Praça da Luz, 2, tel. (11) 229-9844. Até 11/8. Abertura sábado, às 11h, para convidados.

Fonte: Jornal Estadão
01/07/2002