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Mil e uma maneiras de fazer arte no Humaitá
Adriana Pavlova

O performer Michel Groissman apresenta seu trabalho POLVO, no sábado na Galeria Grande

Numa época em que a fronteiras das artes estão cada vez mais dissolvidas, o Espaço Cultural Sérgio Porto pega o embalo das discussões sobre a performance nos dias de hoje e mistura no mesmo palco, numa tacada só, música, dança, teatro e artes plásticas. O nome desse projeto-invenção que leva às últimas conseqüências o conceito de arte contemporânea é “Performato”. De amanhã até domingo, pelo menos duas dezenas de artistas vão se revezar no velho e bom espaço de vanguardas do Humaitá para provar, ao vivo e em cores, que é cada vez mais difícil categorizar o que é artes cênicas, plásticas ou mesmo música.

Não se espante, portanto, se você acabar esbarrando com um sujeito enfiado numa armadura repleta de instrumentos (Tato Taborda e seu Homem-banda) ou com uma fileira de gente ligada por partes inusitadas do corpo (a instalação humana “Polvo”, de Michel Groisman), se der de cara com um clone de Andy Warhol (Gilberto Gawronski em “Pop”), se cruzar com uma mulher gorila (cena do espetáculo do Brasov), com Laura De Vison (a drag queen) ou com crianças reproduzindo cenas de violência no Rio (Cia. Étnica). De quebra, o pacote performático ainda oferece uma edição especial do tradicional CEP 20.000, comandado, como de praxe, pelo poeta Chacal e sua trupe.

— Performance é o trânsito entre diversas artes, é um conjunto — diz o ator e diretor Gilberto Gawronski, muito afeito a essas misturas de linguagem e que assina a costura dos espetáculos com sotaque mais musical do evento, amanhã e quarta, e ainda apresenta seu espetáculo inspirado em Warhol no fim da semana.

Como o clima é de deixar tudo rolar meio à vontade, Gawronski decidiu que mesmo a costura não será tão rígida assim. A idéia é deixar que os artistas interajam por livre e espontânea vontade.

— O divertido será ver o trânsito entre os criadores, ou seja, deixar uma folga para que haja misturas — diz.

A turma da estréia reúne uma boa amostra de músicos contemporâneos como Csëko e Tato Taborda, Bangalafumena e até Cabelo, que, de forma original, fará uma performance musical. O grupo Brasov, comandado pelo ator e músico Felipe Rocha, promete um bando de novidades engraçadas para a platéia.

— Vamos caprichar na nossa veia mais cênica, misturando cenas de magia com um número de dicas para o lar que eu fazia ainda nos tempos da Intrépida Trupe — diz Felipe. — Será uma apresentação ao estilo cabaré.

O evento dividido em seis e dias, com curadoria de Lídia Kosovski, diretora de artes cênicas do RioArte, terá direito ainda a uma espécie de workshop sobre a performance. O artista plástico Alex Hamburguer protagonizará algo que está chamando de “Metaperformance”: enquanto faz gestos cotidianos — como fumar um cigarro, contar dinheiro, ver televisão — ele vai contando um pouco da história cronológica da performance desde o início do século XX, incluindo a gênese no Futurismo, John Cage e o grupo Fluxus. O resultado disso tudo foi batizado por Alex de “Stanisladas”, uma ópera bufa na qual ele ainda consegue fazer citações a Stanislaw Ponte Preta.

— Trata-se de um tributo ao lugar-comum, tão vilipendiado pela maioria, que geralmente prefere o talento grandiloqüente — diz. — Minha filosofia é a da provocação, ou seja, de subverter os valores mais nobres da arte.

Nessa mistura de estilos e pesquisas, haverá ainda espaço para a dança com um solo de Marcia Rubin (“A paisagem daqui é outra”) e trechos de “Catia Cilene”, trabalho de Sylvio Dufrayer que estréia em breve no Sérgio Porto, e “InpírituIncarnadu”, de Denise Stutz, obra inspirada em textos de Guimarães Rosa.

Há também uma mostra paralela de vídeos com trabalhos da série RioArte, que se debruçam sobre as obras e as vidas de artistas como Artur Barrio, Leonilson, Tunga e Eduardo Sued.

 

Fonte: Jornal O Globo