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Arte gráfica russa ocupa CCBB
Karla Dunder São Paulo - Chega nesta quinta-feira ao Centro Cultural
Banco do Brasil de São Paulo a mostra Gráfica
Utópica - Arte Gráfica Russa de 1904
a 1942, um panorama das artes gráficas das
primeiras décadas do século 20. A exposição,
organizada pelo artista plástico e produtor
cultural Evandro Salles, conta com 143 obras gráficas
de vanguarda russa - cartazes que estabelecem relações
com as artes visuais, a publicidade e, principalmente,
a política. O destaque fica com artistas como
Vladimir Maiakovski e Alexander Rodchenko.
As obras fazem parte de uma fase crucial da história
russa e, ao mesmo tempo, muito fértil no campo
artístico. Em um primeiro momento podem ser
observados trabalhos do período pré-revolucionário,
depois da revolução de 1917 até
chegar ao realismo socialista de Stalin. A exposição
conta com cartazes de publicidade, políticos,
e de divulgação artística (teatro,
cinema e eventos), a maioria originais produzidos
dos anos de 1904 a 1942, impressos em processo litográfico.
Colagens de Rodchenko feitas para ilustrar o poema
Isto, de Maiakovski, desembarcam pela primeira vez
na América Latina.
Todo esse material é proveniente do acervo de
três museus: o antigo Museu da Revolução
- atual Museu do Estado de História Contemporânea
Russa, Museu Maiakoviski e do Museu do Cinema. "Na
realidade, essa exposição começou
há um ano, quando fui até Moscou pela
primeira vez, apresentar fotografias sobre o Brasil,
e pude conhecer o acervo do Museu de História
Contemporânea", conta Salles. "Entrei
em contato com os cartazes políticos, considerei
válido trazer esse material para o Brasil,
para que as pessoas conheçam um pouco mais
a respeito da arte russa e a influência que
exerceu sobre artistas brasileiros."
Salles passou a negociar com os outros museus e conseguiu
um conjunto de obras que permitem uma visão
ampla das mudanças sofridas pela Rússia
e, acima de tudo, reforça a idéia de
uma arte engajada. "Posso dizer que essa época
foi marcada pela efervescência artística
em toda a Europa. Moscou foi um dos centros que vivenciou
todo o processo da arte de vanguarda, uma arte marcada
pela exuberância, pesquisas e experimentações,
em um movimento que não separava a arte da
vida", explica.
Décadas significativas no campo artístico,
em todas as suas expressões. "Todas as
áreas têm exemplos de invenções,
no caso das artes plásticas, especificamente,
tivemos uma série de movimentos sucessivos
e ousados, como a arte abstrata de Kandinsky até
as experiências mais radicais do construtivismo",
observa. Essas técnicas e conceitos foram utilizadas
por artistas nos cartazes publicitários com
a intenção democratizar e socializar
a arte.
"Para eles, a arte era um instrumento de mudança
e conscientização do homem, as peças
publicitárias eram um meio de educar as massas
- levavam a arte formal para a população,
que compreendia aquela linguagem e assimilava as idéias
políticas", diz. Outra característica
dessa época é a troca de informações
entre os talentos de diferentes áreas. "Posso
dizer que o cinema possuía elementos das artes
visuais e esta do teatro. Eles cruzavam linguagens,
sem fazer uma arte panfletária, mas politicamente
engajada." Os ideais políticos foram rechaçados
com a revolução socialista. "A
utopia da revolução enaltecia os ideais
da arte moderna, um sonho que mobilizou artistas,
que traduziam discussões fundamentais do socialismo
em suas obras, como a questão da industrialização,
um aspecto básico para os bolcheviques, que
foi abandonado por Stalin", explica. A integração
da mulher era outro tema freqüente.
Destaques - Para o organizador, os artistas comunicavam-se
pelos cartazes de boa qualidade artística.
"Era o meio para estabelecer um diálogo
com a sociedade e, agora, uma maneira que temos de
observar as experiências sofisticadas."
Na exposição, as pessoas terão
oportunidade de compreender a amplitude do trabalho
desses artistas, como Maiakovski, conhecido no Brasil
como poeta e dramaturgo, mas seu raio de ação
era mais amplo - atuava como desenhista, publicitário,
performer e ator.
Para Salles, alguns cartazes merecem atenção
especial. "Uma ilustração convocando
jovens para o alistamento no Exército Vermelho
- o pôster: Você já se alistou?
- foi a inspiração para o clássico
do Tio Sam", comenta. Os pôsteres de cinema
dos irmãos George e Wladimir Stemberg também
merecem atenção.
"Imagens como essas estão no imaginário
de muitos artistas brasileiros, faz parte da formação
de movimentos brasileiros, podemos até fazer
um paraleslimo entre eles e a arte concreta e neoconcreta",
avalia. Salles afirma que a vanguarda russa interfere
até hoje no processo de criação
de muitos artistas.
Gráfica Utópica - Arte Gráfica
Russa de 1904 a1942 é uma exposição
itinerante, que fica em cartaz até 17 de fevereiro.
Depois, ruma para o CCBB do Rio.
Serviço - Gráfica Utópica - Arte
Gráfica Russa de 1904 a 1942. De terça
a domingo, das 12 às 18h30. Centro Cultural
Banco do Brasil. Avenida Álvares Penteado,
112, tel.: 3113-3651. Até 17/2. Abertura na
quinta-feira, às 12 horas
Fonte: Jornal Estadão
05/12/2001
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