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Arte/Cidade invade a zona leste
São Paulo - A quarta edição do evento Arte/Cidade
foi aberta hoje no Sesc Belenzinho, em São
Paulo. Mas, apesar de lançado, nem todas as
obras do evento estão prontas para exibição.
Nem estarão no domingo, quando o público
poderá vê-las na torre leste, um imenso
galpão até então inexplorado
do Sesc Belenzinho, onde funcionava a fábrica
têxtil Moinho Santista. O que pode parecer desleixo
é a proposta da curadoria: fazer com que o
público acompanhe o processo de confecção
de obras de arte. O curador-geral do evento, Nelson
Brissac, programou visitas guiadas, com a presença
dos artistas que assinam algumas das 25 intervenções
da mostra, para datas anteriores à abertura
da versão final do Arte/Cidade, no dia 2 de
março.
O que o público verá se assemelha muito
a um grande canteiro de obras. O Arte/Cidade, mesmo
depois de pronto, não terá qualquer
compromisso com a exibição de obras
belas destinadas à simples apreciação.
Os 25 trabalhos, de artistas brasileiros e estrangeiros,
são intervenções no espaço
do Sesc e também nas ruas da zona leste de
São Paulo, local tema do evento. Os lugares
que receberão intervenções, além
do Sesc, são: Pátio do Pari, Avenida
Rangel Pestana, Avenida Salim Farah Maluf, Estação
Brás, Largo da Concórdia, Largo do Glicério,
Radial Leste e Parque Dom Pedro. Os trabalhos previstos
para ser instalados nas ruas da zona leste só
poderão ser vistos pelo público a partir
do dia 2 de março. Todas as obras têm
em comum a reflexão sobre o espaço e
a cidade.
Entre as obras expostas no Sesc, a de Carmela Gross
será um letreiro luminoso de 25 metros de comprimento
que atravessará o prédio. Nele, lâmpadas
fluorescentes comporão a frase Eu sou
Dolores. A artista explica que a frase é
um grito; escolhi a frase porque ela traz um duplo
sentido. Já a Ana Tavares preferiu usar
o espaço interno do prédio como material
de trabalho. A artista plástica está
construindo uma passarela que percorrerá três
andares do prédio, passando por buracos feitos
no chão. O passante terá que entrar
e sair pelo mesmo lugar, depois de percorrer a passarela
inteira, diz o curador. É um grande
labirinto pelo interior de um prédio.
Foto fragmentada - Nelson Brissac também mostrou,
com entusiasmo, a intervenção de Ary
Perez, uma escavação de seis metros
de profundidade que traz à vista parte da estrutura
do edifício. Queremos aqui levar ao limite
as questões de organização do
espaço, afirmou Brissac. Duas das intervenções
mais interessantes são a do artista alemão
Hermann Pitz, que vai mostrar uma maquete de São
Paulo feita com 55 mil listas telefônicas, e
o trabalho do fotógrafo Cássio Vasconcelos.
Ele decompôs uma foto tirada na estação
de metrô Brás em 67 pedaços. Vai
pendurá-los no teto de um salão do Sesc.
Acontece que o espectador poderá recompor
a imagem, mas apenas de um único ponto de vista,
diz o artista.
Cássio não quer indicar onde este ponto
de vista ficará, mas admite desfazer o mistério
se as reações iniciais à sua
obra forem muito negativas. Entretanto, ele adverte
que, mesmo quando alguém encontrar o ponto
de vista exato para ver a foto inteira, vai demorar
a enxergá-la. Isso acontecerá
porque entre o primeiro e o último planos a
distância será de 8,8 metros. A
foto decomposta de Cássio exigiu alta precisão
para fazer ampliações proporcionais
de cada fragmento da imagem e para montá-las
no salão.
O quarto Arte/Cidade é o mais ambicioso projeto
da série idealizada por Nelson Brissac. Com
27 artistas, 14 nacionais e 13 estrangeiros, e 25
intervenções, o evento ganha as ruas
com soluções urbanas criativas ou apenas
intervenções originais. No primeiro
caso, Vito Acconci vai criar contêineres para
abrigar moradores de rua no Largo do Glicério.
No segundo, Mauricio Dias e Walter Riedweg vão
instalar 30 monitores de vídeo no Largo da
Concórdia, que exibirão, sem interrupção,
de gravações que eles fizeram com camelôs
da região anunciando seus produtos.
Nelson Brissac elegeu a zona leste de São Paulo
para dedicar o Arte/Cidade pelo longo período
de desinvestimento que sofreu, por sua proximidade
com o centro e por sua infra-estrutura. Ele
comandou uma pesquisa de um ano para descobrir os
locais que deveriam receber intervenções.
Agora, Brissac espera que a prefeitura de São
Paulo adote algumas das soluções propostas
no Arte/Cidade, já que nenhuma delas permanecerá
depois de encerrado o evento. A gente não
sabe para onde São Paulo vai, mas a zona leste
tem um papel central nesse futuro, diz.
Obras dos seguintes artistas serão expostas
no Sesc:
Ana Tavares - Ary Perez - Avery Preesman - Carlos
Fajardo - Carmela Gross - Cássio Vasconcelos
- Hannes Foster - Hermann Pitz - Nelson Félix
- Regina Silveira - Waltércio Caldas
Os artistas abaixo farão intervenções
nas ruas da zona leste:
Dennis Addams - Antoni Muntadas - Rem Koolhaas - José
Wagner Garcia - Carlos Vergara - Paul Meurs - Ton
Matton - Ateliê Van Lieshout - Angelo Venosa
- Vito Acconci - Maurício Dias - Walter Riedweg
- José Resende - Marco Giannotti - Casa Blindada
- Krzysztof Wodiczko
Arte/Cidade Sesc Belenzinho e ruas da zona leste.
Sesc: Avenida Álvaro Ramos 991. Tel: 6605-8143.
Visitas guiadas a partir de domingo. Exposição
das obras finalizadas a partir de 2 de março.
Encerramento em 30 de abril.
Fonte: Jornal Estadão
24/01/2002
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