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"Ares e Pensares" propõe uma pausa para reflexão
Maria Hirszman

Maratona do Sesc, nas unidades de São Paulo e nas ruas, vai apresentar 70 atrações nacionais e internacionais, das mais diferentes áreas, entre elas uma instalação de Andy Warhol e um espetáculo do grupo australiano Strange Fruit

Imagem de Spheres, espetáculo do grupo Strange Fruit

São Paulo - O Sesc São Paulo inicia amanhã mais uma daquelas maratonas que tanto movimentam o cenário cultural paulistano. Depois de Babel, do Mundão, do Balaio, é a vez do megaevento Ares e Pensares, que congrega as mais diferentes formas de expressão artística em torno de um duplo objetivo: estimular a suspensão - tanto física quanto psicológica - e a reflexão. "Se conseguirmos instigar, botar uma minhoquinha na cabeça das pessoas, para mim o objetivo já foi atingido", afirma Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc paulista.

Para propor essa pausa reflexiva, todas as unidades do Sesc, até mesmo aquelas que ainda não estão em atividade - como Santana, 24 de Maio e Dino Bueno - foram ativadas. Além disso, uma parte da programação também deve ocorrer nas ruas, como a apresentação no Anhangabaú e no Parque da Independência do espetáculo The Spheres, pelo grupo australiano Strange Fruit, que esteve recentemente no País. Isso explica a estimativa de que 150 mil pessoas sejam atingidas diretamente pela iniciativa até seu encerramento, em 10 de novembro.

São cerca de 70 projetos nacionais e internacionais, das mais diferentes áreas. Desta vez predominam de maneira bastante evidente as artes visuais, com grande concentração no Sesc Belenzinho. É lá, aliás, que ocorrerá a festa de abertura do Ares e Pensares, amanhã à noite. Basta a menção de alguns dos artistas selecionados para participar do evento para que o público tenha uma dimensão da extensão dessa seleção.

A veterana Amélia Toledo, cuja obra está intrinsecamente ligada a uma certa reflexão lúdica, ao desejo de provocar os sentidos e as emoções do espectador, estará na unidade da Vila Mariana. As fascinantes experimentações de caráter conceitual de Nelson Félix e Waltércio Caldas, a irreverente Brígida Baltar com suas colheitas de ar, o frágil equilíbrio proposto pelas intervenções de Edith Derdyk e Arthur Lescher ou as acolhedoras formas fofas e moles de Leda Catunda.

No cenário internacional também há atrações de peso, como a instalação Silver Clouds, criada por Andy Warhol com balões inflados de gás hélio em 1966 e que está sendo remontada no Sesc Pompéia. Aliás, a participação de instituições estrangeiras foi essencial para a concretização desse evento. Como explica o próprio Miranda, um evento como Ares e Pensares é uma somatória de esforços, que congrega a programação normal das unidades do Sesc, um esforço financeiro adicional por parte da instituição (orçado em aproximadamente R$ 600 mil) e a contribuição indispensável de parceiros como o British Council e os consulados do México - responsável pela realização de um Altar dos Mortos no Sesc Ipiranga -, da França, do Japão e da Grécia.

Depois das artes visuais, as áreas melhor representadas no evento são a dança, a música e o teatro. A seleção é bastante diversificada, incluindo desde o canto de monges do Tibete até um esdrúxulo concurso de tocadores de guitarra sem guitarra. Há também uma presença maciça de shows de compositores e intérpretes brasileiros, como Chico Pinheiro, Walter Franco e Uakti. Entre as atrações internacionais estão Arto Lindsay e o argentino Carlos Aguirre.

É curioso notar que, se na seleção de artes plásticas predominam as metáforas da leveza, da flutuação, da reflexão lúdica, nas outras áreas não há uma harmonia tão nítida. No caso da seleção teatral, temos até a sensação de que se buscou o outro lado da moeda, dando ênfase a tragédias como Medéia 2, dirigida por Antunes Filho, a um fórum sobre Beckett ou a montagem de Antígona pelo Teatro Nacional da Grécia. Várias são as intervenções que cutucam de perto as incongruências e contradições da sociedade contemporânea, como a performance alemã Por Que Você Compra?, em que são questionados os absurdos do consumo compulsivo.

Assim como o evento é marcado por uma grande multiplicidade de linguagens, temas e enfoques, também não há em sua coordenação um orientação rígida, centralizada. O projeto foi concebido pela equipe do Sesc sem que haja a figura do curador único, explica seu diretor regional. "Temos o cuidado de equilibrar a coordenação, as influências externas com a produção interna", afirma ele, lembrando que, apesar de em alguns momentos predominar uma certa leveza nos trabalhos, o objetivo sempre foi o de propor um momento de reflexão, mais do que de entretenimento.

"Fatos culturais inusitados como estes são muito importantes para a cidade", conclui Miranda. Ainda mais se levarmos em consideração que o País como um todo parou para tomar decisões e estamos diante de um novo momento que terá repercussões em todas as áreas, incluindo as áreas de produção e divulgação cultural. "É necessário desenvolver uma ação com caráter verdadeiramente inclusivo, democratizar a cultura e levá-la a um número cada vez maior de pessoas", afirma.

Mostra Sesc de Artes - Ares e Pensares. Abertura amanhã, às 20h30, no Sesc Belenzinho. Avenida Álvaro Ramos, 915, São Paulo, tel. (0xx11) 6602-3700. As exposições ficam em cartaz de 3.ª a 6.ª, das 13 às 22 horas; sáb., dom. e fer., das 9 às 18 horas. A única unidade que apresenta horário diferente para as exposições é a Vila Mariana, que funciona a partir das 7 horas. Informações sobre a programação no site www.sescsp.org.br ou pelo telefone 0800-118220.

Fonte: Jornal Estadão
30/10/2002