NOTÍCIAS
 

A arte alternativa sai do gueto e ganha as ruas da cidade

Daniela Name

Schafer e Agergaard


Arte se expõe no museu, certo? Também. A partir de hoje, bancas de jornais, praças e até barraquinhas de angu serão palcos possíveis para o “Rio Trajetórias”, um projeto que reunirá 60 artistas do Brasil e do mundo para transformar, ao longo de todo o mês de novembro, a cidade num grande happening. Performances, obras interativas e instalações tomarão conta de praças, esquinas e, é claro, de boa parte das melhores instituições da cidade.


Iniciativa do Museu do Telephone com apoio do RioArte, o “Rio Trajetórias” mostra uma tendência que vem ganhando força: existe uma turma disposta a mostrar que o mercado vai muito além da velha relação entre criador e mecenas, que remonta aos tempos do Renascimento.


Antigos “marginais” recebem gordos patrocínios


As exposições de gente jovem estão lotadas e iniciativas como Nova Orlândia — uma casa de Botafogo que foi ocupada por artistas alternativos — atraem público de várias gerações. O sucesso desse tipo de evento chama a atenção para o início da era do artista S.A., que estende a experiência da obra de arte para a maneira como administra sua carreira.


A geração que tem entre 20 e poucos e 30 e muitos já aprendeu que é possível discutir e negociar a arte longe das esferas tradicionais, além de manter uma relação mais aberta e mais livre com a crítica, os colecionadores e os donos de galeria. A Agora/Capacete, que funciona há quase dois anos na Lapa, é ao mesmo tempo um conjunto de ateliês, galeria e espaço para palestras e debates. Começou apenas com a cara e a coragem dos quatro administradores — os artistas Eduardo Coimbra, Ricardo Basbaum, Raul Mourão e Helmut Batista — e da coordenadora Luiza Mello, mas tem dado tão certo que, na primeira edição do programa Petrobras Artes Visuais, recebeu R$ 280 mil para ampliar sua linha de atuação. A verba fez com que o Agora desse passos mais ambiciosos: produção de seis exposições (a primeira, de Brigida Baltar, já foi feita), de um site oficial e a volta da importante revista “Item”.


— A semente da autogestão aparece no fim dos anos 80, com o grupo A Moreninha, do qual Basbaum fazia parte — acredita o crítico Marcio Doctors, que fez parte da banca que escolheu os contemplados da primeira edição do programa da Petrobras.


A popularização dos artistas ditos alternativos só faz crescer. Ricardo Basbaum foi convidado a fazer a curadoria do grupo brasileiro de exposição na cidade do Porto, em Portugal, e selecionado para a próxima Bienal de São Paulo, enquanto Eduardo Coimbra está na Bienal do Mercosul.


— Vivemos um momento de abertura de caminhos — diz Tatiana Grinberg, que expôs recentemente no Museu de Arte Moderna e participa de uma exposição de fotos sobre o Rio, em Paris.


Os organizadores de Nova Orlândia também já sentem reflexos da maturidade. Ricardo Ventura, Márcia X e Elisa Magalhães propuseram a amigos a ocupação, com obras de arte, de uma antiga casa da família de Ventura, em Botafogo. O sucesso da primeira versão foi tanto que artistas de gerações anteriores, como Tunga, Victor Arruda e Luiz Alphonsus, fizeram questão de participar do remake, há dois meses.


— Tunga pagou do próprio bolso a sua instalação, um muro feito de peixes, pães e vinho. Ele é um artista consagrado, não precisa mais disso, mas entendeu o espírito de Orlândia — vibra Elisa Magalhães, que garante a volta da iniciativa em novo endereço.


Grandes nomes da arte dos anos 60 se reúnem no Rio


O “Rio Trajetórias” é movido por autogestão e busca de caminhos alternativos para arte. Nome importante da cena americana na virada dos anos 60 para os 70, David Medalla, último curador da Bienal de Londres, promoverá um baile nas areias de Copacabana, numa obra performática em homenagem a Fred Astaire e Ginger Rogers. A alemã Janne Schafer e a dinamarquesa Kristine Agergaard vão montar uma instalação num Ciep na Rocinha. Já o brasileiro Bob N vai distribuir angu (o Angu do Bob, numa brincadeira com o antigo Angu do Gomes) em quatro pontos da cidade.
— Nossa idéia é provocar discussão e mostrar a arte de uma maneira completamente incomum — diz a curadora, Cristiana de Melo.

Fonte: Jornal OGlobo.Com
05/11/2001