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Raridades de Aleijadinho vão a leilão
no Rio
Beatriz Coelho Silva
Após um enfarte, colecionador de 90 anos decidiu
se desfazer das obras para ter certeza de que ficarão em
boas mãos

Otávio Magalhães/AE
Gonçalves compra arte sacra desde os anos 30. Entre os destaques
do leilão, está uma cabeça de Cristo Ultrajado
em tamanho natural
Rio de Janeiro - Um par de anjos, uma imagem de Nossa Senhora da
Piedade e outras obras de Aleijadinho, mestre do barroco mineiro,
estarão à venda no que pode ser um dos mais importantes
leilões do mercado brasileiro de arte nos últimos
tempos. As peças pertencem ao médico João Bosco
Vianna Gonçalves, especialista no artista e cunhado do banqueiro
Walter Moreira Salles. Aos 90 anos, após sofrer um enfarte,
o colecionador quer ter a certeza de que as obras ficarão
em boas mãos.
Entre as peças principais estão um par de anjos de
presépio (com preço mínimo de R$ 600 mil);
duas imagens de 18 centímetros, uma Nossa Senhora da Piedade
e um São João Nepomuceno (R$ 500 mil), uma cabeça
de Cristo Ultrajado em tamanho natural (R$ 300 mil) e um Anjo de
Sepulcro sentado em nuvens (R$ 550 mil). Há ainda um crucifixo
em pinho de riga (R$ 100 mil), cujas características Gonçalves
garante serem do artista. "A musculatura, a boca aberta e os
olhos amendoados, além do caimento dos tecidos, são
características dele."
O leilão está marcado para ocorrer entre 13 e 16
de agosto, na galeria Leone. Gonçalves é colecionador
desde a adolescência, passada entre Santa Luzia, cidade história
na região metropolitana de Belo Horizonte, e São João
del Rey, perto da região onde o artista viveu há 200
anos. Gonçalves começou a comprar arte sacra mineira
nos anos 30 e sua primeira peça, um pequeno oratório,
está entre as 60 à venda. Vai vendê-las porque
seus herdeiros não apreciam arte barroca. Se a família
não liga, vários colecionadores já procuraram
conhecer as peças, pois a última vez que uma obra
de Aleijadinho apareceu à venda no Rio estava com preço
mínimo de US$ 1,2 milhão (cerca de R$ 3,5 milhões).
"Em 26 anos de pregão, nunca vendi um Aleijadinho.
São peças que enobrecem meu ofício", diz
o leiloeiro Acir da Costa. "Devem sair pelo menos pelo dobro
do preço mínimo, pois quem tem uma obra de Aleijadinho
não a vende." Além de comprar as peças
num tempo em que a arte barroca era pouco valorizada até
pela própria Igreja Católica, Gonçalves aprendeu
a restaurá-las com especialistas ou por conta própria.
Hoje, tem autoridade para autenticar as peças
Jornal Estadão
24/07/2003
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