| Retrospectiva mostra 50 anos
de Brasil
Beatriz Coelho Silva
Rio de Janeiro - Durante cerca de 50 anos, do
fim da 2.ª Guerra Mundial até 1996,
o fotógrafo francês Marcel Gautherot
percorreu o Brasil registrando a arquitetura e
a paisagem, os costumes e festas populares e a
fisionimia e o cotidiano da população.
Foram mais de 25 mil negativos, hoje em poder
do Instituto Moreira Salles (IMS), que promove
a primeira retrospectiva de sua obra a partir
desta quarta-feira, no Rio. Foram selecionadas
267 imagens para a mostra e delas 107 ganharam
reprodução em um livro, com textos
de Oscar Niemeyer, entre outros intelectuais,
cujo lançamento ocorre amanhã também
no IMS carioca.
Mais que a quantidade de negativos, a qualidade
e variedade de interesses de Gautherot valorizam
sua produção. Ele nasceu em Paris
em 1910 e tornou-se fotógrafo em meados
dos anos 30, ao trabalhar na instalação
do Museu do Homem, um dos principais da França,
especializado em antropologia. Na época,
leu "Jubiabá", de Jorge Amado,
e apaixonou-se pelo Brasil. Chegou aqui às
vésperas da 2.ª Guerra Mundial e,
após o conflito radicou-se no Rio. Tornou-se
fotógrafo oficial da Secretaria do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional,
criado dez anos antes e, como tal, saiu pelo País
registrando nossos monumentos.
"Essa parte arquitetônica foi encomenda
do governo, mas as fotos da paisagem, dos costumes
e os retratos do povo brasileiro foram iniciativa
dele mesmo", conta o diretor-geral do IMS,
Luiz Fernando De Franceschi, também curador
da mostra e organizador do livro. "Ele tinha
tanta intimidade com os objetos de suas fotos
que conseguia mostrar um Brasil que não
lembramos que existe, sem o olhar do estrangeiro
em busca do exótico. Por isso o título
da mostra é "O Brasil de Marcel Gautherot".
Sua empatia com os personagens resulta em absoluta
naturalidade nas fotos."
Técnica - Noventa por cento da obra de
Gautherot é em preto-e-branco e ele explora
o contraste luz e sombra de uma forma pouco habitual
até então. Se suas fotos eram posadas
ou ele esperava o momento adequado para clicar
as cenas, nada disso transparece, pois a impressão
é de instantaneidade. De Franceschi, no
entanto, lembra que para conseguir esse resultado
pouco parava no Rio, onde vivia e morreu em 1996.
Seu acervo veio para o IMS em 1999, juntando-se
a uma coleção em que prevalece a
produção do século 19 e da
primeira metade do século passado. Segundo
De Franceschi, os negativos estavam em bom estado,
"em que pesem estarem em sua casa, na Praia
do Flamengo", ressaltou. A higienização
e estabilização dos negativos já
está completa, mas a organização
final das 25 mil fotos ainda demora devido ao
grande volume. "Decidimos fazer a retrospectiva
porque Gautherot nunca fez um panorama de sua
produção. Seus trabalhos sempre
estiveram em mostras coletivas ou temáticas."
A exposição fica no Rio até
março e depois segue para o IMS de São
Paulo, indo depois para Poços de Caldas
e Belo Horizonte, em Minas Gerais.
Fonte: Jornal Estadão
05/12/2001
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