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A coleção nota 10
Daniela Name

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É uma festa carioca não para a Semana de Arte Moderna, que acaba de fazer 80 anos, mas para a modernidade brasileira. Que parece ser muito mais antiga, diga-se de passagem. A inauguração da exposição e o lançamento do livro “Arte brasileira na Coleção Fadel — Da inquietação do moderno à autonomia de linguagem”, hoje, no Centro Cultural Banco do Brasil, são uma oportunidade única para quem quer ver obras-primas do período moderno brasileiro: há peças de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Portinari e Guignard entre os 160 trabalhos escolhidos, numa seleção do período que o Rio não via há anos. Também é a chance para quem está interessado em outras visões do modernismo, um dos movimentos mais ricos e populares da arte nacional. Através do olhar do casal de advogados Hecilda e Sergio Fadel e do texto do curador Paulo Herkenhoff, o espectador vai poder enxergar um Brasil que foi moderno muito antes de 1922.

— A coleção soube ser intuitiva para selecionar a nata do modernismo, mas também para abrir os olhos para o que Mário de Andrade não quis ver: Belmiro de Almeida, Timóteo da Costa e Visconti foram modernos antes de 1922, um ano em que não se fazia pintura moderna no Brasil, já que Anita Malfatti tinha perdido sua força e Tarsila não tinha uma linguagem definida — diz Herkenhoff. — Mário não olhou para eles porque não interessava geopoliticamente. Precisava fazer de São Paulo o berço da cultura, e os três viviam no Rio.

Para curador, Belmiro já era moderno em 1908

Para justificar a teoria, “Maternidade em círculos”, de Belmiro de Almeida — em que o pintor transforma as figuras de mãe e filho e o fundo da tela num colorido mosaico de esferas — foi transformado em capa do livro, que tem selo da Andrea Jakobsson Estúdio. O quadro é de 1908, 14 anos antes da semana que agitou a Paulicéia. O que não significa que os modernistas paulistas sejam deixados em segundo plano, muito pelo contrário. Tema de um dos mais polêmicos ensaios do livro (“Aristocracia”), Tarsila comparece com seis trabalhos importantíssimos, entre eles ”Nu cubista” (1923), reflexo de seus estudos em Paris; “Morro da Favela” (1924), que já mostra sua preocupação com a busca da “cor local”; e “O lago” (1928), com influência surrealista. É a primeira vez que seis Tarsilas da coleção — que fica guardada no apartamento do casal, um dúplex no Leme — são vistas juntas em público.

— Tarsila entrou para a história como a inventora de uma “cor caipira”, mas “Morro da Favela”, um de seus quadros mais importantes, foi pintado à beira-mar — diverte-se Herkenhoff, lembrando que o Morro da Favela é hoje o Morro da Providência.

Fazem companhia à pintora pesos pesados do século XIX, como Castagneto, e artistas neoconcretos como Lygia Clark, Hélio Oiticica e Frans Weissmann, numa exposição que é uma aula sobre os últimos 200 anos da arte nacional. Satisfeitos com a seleção do curador, Sergio e Hecilda não teorizam sobre as obras. No apartamento do casal, as roupas ficam empilhadas em pequenos closets para que os armários não roubem paredes dos quadros.

— Posso contar minha vida através dos quadros, cada um marca um momento importante — diz Hecilda, que tem em “Morro da favela” seu “rebento” predileto. — Infelizmente quase não convivo com ele, que vive sendo emprestado para exposições. Mas tenho orgulho de seu sucesso.

Tão coruja quanto a mulher, Sergio mantém seu mais querido — uma paisagem de Georg Grimm — no escritório de casa. E diz que o segredo da boa coleção é sua constante atualização:

— Nunca hesitei em substituir os quadros por outros mais significativos.

Fonte: Jornal OGlobo.com
26/02/2002