|
Gil quer tirar arte contemporânea do gueto
Maria Hirszman
Ministro anuncia o projeto Arte Democracia na
Bienal, a primeira parceira do movimento, visando
ampliar o público para a arte contemporânea
São Paulo - O ministro da Cultura Gilberto
Gil lançou ontem, no Pavilhão da
Bienal, o Movimento Arte Democracia, que tem por
objetivo estimular e fomentar ações
que promovam um trabalho de ampliação
do público para a arte contemporânea
e inclusão de novas camadas da população
neste restrito universo cultural. O projeto, que
não prevê necessariamente contrapartidas
financeiras por parte do Governo Federal, tem
como primeiro e único parceiro a Bienal
de São Paulo - daí a realização
da pomposa cerimônia, com direito a Hino
Nacional e a várias autoridades públicas.
O objetivo é agregar cada vez mais ações
democratizantes, de forma a mudar a cultura nacional
em relação à produção
artística de ponta. "Não há
necessariamente participação em
termos práticos. O ministério orienta,
instiga, informa, articula instituições
públicas e privadas, aproximando-as e contribuindo
com eventuais recursos humanos, financeiros e
técnicos", explica Gil. "É
preciso articular. Temos centenas de ONGs no País
que não se falam", diz ele, lembrando
que só com mais recursos e maior sinergia
entre as várias instituições
será possível superar a "fragilidade
operacional do sistema cultural brasileiro".
Para Gil, esse processo de difusão e inclusão
- "a arte se realiza na fruição
e não apenas no fazer" - se dá
a partir de duas questões básicas:
do reconhecimento e valorização
dos códigos artísticos nacionais,
sejam da esfera culta ou popular, e da facilitação
do acesso do público. "O Ministério
faz um apelo público para que as instituições
tornem gratuitas todas as suas atividades e estimulem
o acesso a elas; defende o acesso ao patrimônio
simbólico e cultural público e gratuito",
concluiu.
É exatamente nessa direção
que segue uma das medidas de maior impacto proposta
pela Bienal, que promete tornar inteiramente grátis
o acesso à 26.ª edição
do evento, que será inaugurado em setembro.
Sem querer falar em números e mostrando-se
irritado com as perguntas sobre o orçamento
do evento, o presidente da Bienal prometeu que
vai obter recursos suficientes para garantir a
realização da mostra sem ter de
recorrer a receitas oriundas da bilheteria. Essas
verbas podem ser de origem pública - emenda
orçamentária aprovada na Câmara
dos Deputados garantiu uma verba de até
R$ 12,5 milhões para a instituição
este ano - ou privada. O orçamento geral
para a próxima Bienal será de R$
18 milhões.
Formação - Outra iniciativa anunciada
ontem pela Bienal de São Paulo, desta vez
em parceria com a Prefeitura de São Paulo,
Unesco e outros patrocinadores como a Granero,
por exemplo, é a formação
de auxiliares de montagem. Um grupo de 50 jovens
selecionados pelo projeto Bolsa-Emprego receberão
840 horas de formação e vivência
profissional, ao longo de seis meses, que envolve
desde noções de marcenaria, pintura
e embalagem a noções de cidadania
e artes.
Supervisiona o grupo Clara Perino, experiente
profissional do setor. Segundo ela, os alunos
estão recebendo R$ 170 por mês para
aprender e, durante a Bienal, terão uma
remuneração mais alta. Zenaide Rodrigues,
de 17 anos, e Vanessa Gomes, de 18, fazem parte
do grupo e compareceram com os colegas na cerimônia
de divulgação do projeto.
Outras iniciativas concretas no âmbito
da Bienal são o estabelecimento de parceria
entre a instituição e a Fundação
Álvares Penteado (FAAP), que envolverá
seus alunos no sistema de monitoria oferecido
durante a 26.ª Bienal e o lançamento
de uma mostra paralela, na Galeria Prestes Maia,
destinada aos artistas jovens (até 35 anos),
como uma versão brasileira do Aperto, da
Bienal de Veneza.
Jornal Estadão
14/05/2004
|